segunda-feira, 13 de julho de 2020

GALERIA DOS CAMPEÕES MUNDIAIS DE XADREZ - TAL


Retomando a nossa série de postagens sobre os campeões mundiais de xadrez, hoje iremos falar a respeito do oitavo campeão do mundo, Mikhail Tal, um dos mais brilhantes enxadristas de todos os tempos e um dos meus ídolos no xadrez! 


MIKHAIL TAL


Mikhail Nekhemevitch Tal nasceu em Riga, capital da Letônia, no dia 09 de novembro de 1936. Desde a infância, o pequeno "Misha" demonstrou uma inteligência fora do comum, tornando-se um autêntico prodígio para os estudos em geral, em particular para o cálculo matemático. Aprendeu xadrez por volta dos oito anos com seu pai, porém somente aos 17 anos jogaria sua primeira partida séria contra um Grande Mestre. Quando pensamos que oito anos depois ele já era ex-campeão mundial, nos damos conta de quão rápido foi o seu progresso no jogo-arte-ciência! O primeiro grande êxito competitivo de Misha foi obtido em 1957, quando ele se converteu em campeão da União Soviética pela primeira vez, com apenas 20 anos de idade! A partir daí sua ascensão ao Olimpo do xadrez foi meteórica: aos 21 anos, ele voltou a ganhar o campeonato soviético, ganhando também o Interzonal de Portoroz, e aos 22 anos venceu o Torneio de Candidatos da Ioguslávia (1959), qualificando-se para enfrentar o poderoso "Patriarca da Escola Soviética", Mikhail Botvinnik, em um match pelo Campeonato Mundial!
  

O jovem Mikhail Tal

Quando Tal venceu o campeonato soviético pela primeira vez, ele causou admiração não só pela sua juventude, mas também em razão do seu estilo ousado e repleto de sacrifícios. Antes de Tal, havia sido difícil surpreender o mundo do xadrez com algo novo, por isso nem podemos imaginar o tipo de emoções que despertou a aparição da jovem estrela na arena internacional. Suas vitórias eram espetaculares, e ele rapidamente conquistou a reputação de um  brilhante jogador de ataque, ao mesmo tempo em que arrebanhou uma multidão de fãs ao redor do mundo. "Desnecessário dizer", escreve Kasparov no 2º volume de Meus Grandes Predecessores, "que o jogo rebelde de Tal, intuitivo e distante das prosaicas especulações de torneios, conquistou o coração dos aficcionados do xadrez de todas as partes". A sorte parecia favorecer a esse destemido artista do tabuleiro, mas o momento crucial na fulgurante trajetória do "Mago de Riga" estava se aproximando: seria ele capaz de ultrapassar a sólida muralha representada pelo então campeão mundial Botvinnik?  




O match pelo Campeonato Mundial que colocou frente a frente esses dois jogadores de estilos antagônicos foi realizado em Moscou, entre os dias 15 de março e 07 de maio de 1960. Foram jogadas 21 partidas, das quais Botvinnik só conseguiu vencer a 8ª e a 9ª, ao passo que Tal venceu seis, ganhando assim o confronto pelo placar de 12,5 x 8,5 (+6 -2 =13) e sagrando-se o mais jovem enxadrista da história a conquistar o título mundial (23 anos), recorde que só seria quebrado em 1985, por Kasparov. O mundo do xadrez estava atônito! Tal havia conseguido um triunfo colossal, ao abater os fundamentos da velha escola posicional, da qual Botvinnik era o representante máximo. Sua vitória encheu de felicidade todos os partidários do jogo arriscado e combinativo, mas, a exemplo do que ocorrera com Smyslov dois anos antes, sua alegria iria durar pouco. Devemos lembrar que as regras de disputa estabeleciam o direito de Botvinnik a um match-revanche, que foi celebrado no ano seguinte, 1961. Para o segundo confronto, Botvinnik procurou melhorar sua capacidade tática, para tentar se equiparar a Tal, e principalmente buscou empregar aberturas e planos de meio-jogo que levassem a posições fechadas, em que as peças tivessem pouca mobilidade, a fim de refrear o ímpeto ofensivo do seu rival e superá-lo no terreno estratégico. Essa mudança na forma de jogar, aliada ao estado de saúde debilitado de Tal, fizeram com que o desafiante atingisse o objetivo almejado, tanto é que o Mago de Riga mais tarde escreveria, em seu livro En el fragor del ataque: "Posso assegurar-lhes que me preparei para este segundo encontro com a mesma intensidade que para o primeiro, mas não estava absolutamente preparado para afrontar a metamorfose de Botvinnik. [...] O Botvinnik do primeiro match e o Botvinnik do match-revanche eram pessoas distintas, embora ambos jogadores fossem do mesmo alto nível". O match-revanche de 1961 terminou com a contundente vitória de Botvinnik por 13 x 8 (+10 -5 =6), e Tal se viu despojado do título mundial. Seu reinado, lamentavelmente, durou apenas 1 ano e 5 dias. 


Tal vs. Botvinnik - Campeonato Mundial de 1960


Embora nunca mais tenha conseguido recuperar a coroa do xadrez, Mikhail Tal se manteve durante muito tempo entre os melhores enxadristas do mundo, vencendo vários torneios importantes e protagonizando longas sequências de partidas invictas, uma façanha extraordinária para um jogador conhecido pela sua inclinação ao risco! A respeito do estilo de Tal, pouco temos a acrescentar além do que já foi dito até aqui. É válido ressaltar que ele era dotado de uma fenomenal imaginação, de uma memória fotográfica e de uma fantástica capacidade de cálculo, e que seus ataques muitas vezes eram baseados não no cálculo concreto, mas sim em sua inspiração intuitiva. É sabido que muitas das combinações que Tal executava sobre o tabuleiro não podiam ser calculadas até o final, e nas posições complexas e "irracionais" que eram criadas em suas partidas, frequentemente seus adversários se equivocavam e não conseguiam encontrar a defesa correta, sucumbindo perante as complicações surgidas. Ele expressava esse fato com uma frase que se tornou famosa: "Há dois tipos de sacrifícios: os corretos e os meus". Como autor de livros de xadrez, Tal legou à literatura enxadrística alguns dos melhores livros já escritos, dentre eles aquele em que o autor analisa as suas partidas contra Botvinnik pelo Campeonato Mundial de 1960. Seu último êxito competitivo foi a vitória no Campeonato Mundial de Xadrez Relâmpago realizado pela FIDE em 1988, à frente de Karpov e Kasparov, os dois jogadores mais fortes do mundo na época. Infelizmente, esse gênio das combinações manifestou uma postura descuidada com sua saúde, que foi durante muitos anos prejudicada pelo consumo abusivo de álcool e sobretudo do cigarro. Certamente esse foi um fator que contribuiu para a sua morte prematura, ocorrida no dia 28 de junho de 1992, aos 55 anos.  Em homenagem à sua memória, anualmente, desde 2006, é realizado em Moscou o Memorial Mikhail Tal.  




A partida que exibiremos a seguir, uma tensa batalha travada contra Karpov em 1987, é típica do brilhante estilo de ataque do "furacão tático" Mikhail Tal! 



sábado, 11 de julho de 2020

DESAFIO DE XADREZ - PRIMEIRA PARTIDA TERMINA EM EMPATE


A primeira partida do Desafio de Xadrez entre Luiz Fábio Jales e Joaquim Virgolino foi jogada ontem à noite (10/07), no site Chess.com. Coube a mim conduzir as peças brancas nesse primeiro confronto, e resolvi abrir o jogo com o Gambito da Dama. Joaquim respondeu com a sólida Defesa Eslava, e no meio-jogo os dois jogadores deram início a planos distintos: enquanto eu tentei construir um ataque na ala do rei, Joaquim decidiu contra-atacar na ala da dama. Após várias trocas que simplificaram a posição, entramos em um final de bispos de igual cor, em que Joaquim tinha um peão a mais; porém, felizmente para mim, ele não conseguiu enxergar um golpe tático vencedor no lance 38, que implicava na entrega de dois peões pretos pelo bispo branco, e com isso a partida terminou empatada por tripla repetição da posição, no lance 51.




Posição final da 1ª partida
    

A posição final da partida está representada no diagrama acima. Notem que o bispo branco não pode deixar de fiscalizar a casa c1, para não permitir que o rei negro invada a ala da dama e capture o peão de a4, o que daria a vitória a Joaquim. Apesar de ter jogado com as peças brancas, o empate nesse primeiro jogo foi vantajoso para mim, pois eu estava em posição perdida no final, haja vista que as negras poderiam forçar a vitória expulsando o rei de d3, por meio de um astuto sacrifício de peão: 1. ...Bc3 2. Bh6 c4+! 3. Rxc4 Rc2, ganhando com facilidade. Agora o peão d negro está com o caminho livre para a coroação, e só poderá ser parado mediante o sacrifício do bispo branco. Ufa! Ainda bem que Joaquim não percebeu!😬  

Agora vamos nos preparar para a segunda partida, que está programada para acontecer na próxima terça-feira (14/07). Espero que a sorte continue do meu lado... até lá!

SEÇÃO MEMÓRIA


Há 48 anos, no dia 11 de julho de 1972, foi jogada em Reykjavik, capital da Islândia, a primeira partida daquele que ficou conhecido como "O Match do Século", entre o campeão mundial russo Boris Spassky e o desafiante estadunidense Robert ("Bobby") James Fischer. Este foi sem dúvida o match mais analisado, mais comentado e sobre o qual mais se escreveu em toda a história do xadrez. E isso porque este foi um confronto que extrapolou o âmbito esportivo, uma vez que se inseriu no contexto da chamada "Guerra Fria", um conflito político-ideológico entre as duas maiores potências mundiais existentes entre as décadas de 1940 e 1990, os Estados Unidos capitalista, e a União Soviética socialista. Esses países emergiram como superpotências após o fim da 2ª Guerra Mundial, e então deram início a um estado de tensão geopolítica crescente, ao tentarem ampliar cada vez mais seu poderio militar e sua zona de influência entre os demais países do globo.


Charge retratando o conflito global entre EUA e União Soviética


Nesse contexto de competição declarada, os dois países rivais estabeleceram uma corrida armamentista e tecnológica, lutando pela supremacia em praticamente todas as esferas de atuação, inclusive nos esportes. Daí o motivo pelo qual o match entre Spassky e Fischer ser considerado um momento icônico da Guerra Fria: pela primeira vez após 25 anos de dominação soviética no cenário enxadrístico internacional, um jogador ocidental havia se qualificado para a final do Campeonato Mundial, e tinha chances reais de vitória! Essa ameaça representada por Fischer assombrava as autoridades soviéticas, cujo governo totalitário havia investido pesado durante décadas no desenvolvimento do xadrez nacional, a fim de transformá-lo numa arma na guerra ideológica travada contra o Ocidente; havia, por parte dos líderes do regime socialista, a intenção de utilizar o xadrez como símbolo da superioridade intelectual soviética sobre o Ocidente "decadente". Para se ter acesso a um relato completo sobre "O Match do Século" e sobre como o xadrez foi empregado como ferramenta política durante a Guerra Fria, recomendamos a leitura do excelente livro Rei branco e rainha vermelha: como a Guerra Fria foi disputada no tabuleiro de xadrez, do historiador britânico Daniel Johnson, obra da qual já falamos aqui no blog (https://batalhadementes.blogspot.com/2019/02/secao-vale-pena-conhecer.html).


Spassky vs. Fischer no Campeonato Mundial de 1972


Apesar de Fischer ter perdido a primeira partida do match contra Spassky, após realizar uma incompreensível captura de peão que lhe custou um bispo numa posição empatada, ele se recuperou e venceu a disputa pelo placar de 12,5 x 8,5 (+7 -3 =11), convertendo-se assim no 11º campeão mundial de xadrez e quebrando a hegemonia soviética no jogo. Um dado interessante é que Johnson, no livro supracitado, afirma que, ao derrotar Spassky, Bobby Fischer não só conquistou o título máximo do xadrez, mas também desempenhou um papel muito importante ao preparar o terreno para a vitória do Ocidente na Guerra Fria, que viria a culminar no colapso do regime soviético no início da década de 1990: "Ao romper o confortável monopólio dos grandes mestres soviéticos, Fischer criou o que se tornou conhecido como o 'boom Fischer' no Ocidente. [...] Mas Fischer também teve um papel num palco muito maior. Ao provar que a União Soviética podia ser derrotada por um único indivíduo, encorajou dissidentes de todas as partes. A Guerra Fria terminou porque os soviéticos perceberam que não poderiam vencê-la - tanto no nível intelectual quanto no político ou no econômico. Essa percepção começou a surgir com Bobby Fischer e 'essa coisinha entre mim e Spassky'". 

Sei que esta partida é conhecidíssima, mas, se alguém ainda não tiver visto a primeira partida do "Match do Século", pode visualizá-la clicando aqui. Salve Bobby Fischer, um dos maiores heróis do Ocidente na luta contra o "Império do Mal¹"!   


¹ Império do Mal: Expressão aplicada à União Soviética, em 1983, pelo então presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan.