terça-feira, 19 de novembro de 2019

O DUPLO SACRIFÍCIO DE BISPOS


Prezado(a)s amigo(a)s, estamos de volta após alguns dias de pausa nas publicações do blog, pausa que foi realizada justamente para que os leitores tivessem tempo suficiente de reproduzir no tabuleiro todos os 20 sacrifícios de dama apresentados na postagem anterior, sem dúvida um excelente exercício tático... 
Hoje traremos ao conhecimento do público mais um caso emblemático de combinação, que envolve o sacrifício do par de bispos. Trata-se de um sacrifício relativamente raro, cujo exemplo mais famoso foi sem dúvida aquele executado por Emanuel Lasker na sua partida contra Bauer, jogada em Amsterdã no distante ano de 1889. Acompanhemos a posição crítica da partida no diagrama abaixo:


E. Lasker vs. J. Bauer (1889) - Abertura Bird


Nesta partida, o jovem Lasker, de 21 anos, que disputava na ocasião o seu primeiro torneio internacional, conseguiu dispor suas peças de modo agressivo, com os dois bispos apontando diretamente para o rei adversário. Após o fraco lance 13...a6?, por parte das negras, o futuro Campeão Mundial daria início a uma bela sequência de ataque: 14. Ch5! Cxh5 (A combinação começa com o sacrifício do cavalo branco, para desviar o cavalo negro da defesa da casa h7. Ao analisar essa posição em seu livro Meus Grandes Predecessores, volume I, Kasparov comenta que, por incrível que pareça, a posição das negras já está praticamente perdida!).
Seguiu: 15. Bxh7+! (O primeiro bispo é sacrificado!) 15...Rxh7 16. Dh5+ Rg8 17. Bxg7!! (Simplesmente espetacular! Um segundo sacrifício de bispo desmantela a fortaleza do rei negro, e o deixa correndo grande risco).
A partida prossegue: 17...Rxg7 (Não há nada melhor para as negras) 18. Dg4+ Rh7 (Se 18. ...Rf6, as brancas dão mate com 19. Dg5#) 19. Tf3 (Com ameaça de mate) 19...e5 (Única defesa que impede o xeque-mate, mas não evita a derrota) 20. Th3+ Dh6 21. Txh6+ Rxh6 22. Dd7! (A "coroação" da combinação... as brancas ganham uma peça e com ela a partida).


Posição da partida após o vencedor 22. Dd7!


Depois desse último movimento das brancas, o enxadrista Bauer ainda tentou resistir por mais algum tempo, mas enfim se viu obrigado a abandonar, à altura do lance de número 33. Esta é uma das obras-primas combinatórias produzidas pelo formidável Emanuel Lasker! Espero que tenham gostado, até breve!

quinta-feira, 14 de novembro de 2019

OUTROS FAMOSOS SACRIFÍCIOS DE DAMA


Os sacrifícios de dama, apesar de todo o impacto que costumam causar, por constituírem uma manobra tática de grande beleza, são relativamente comuns no xadrez, principalmente na prática magistral. Eu mesmo, sendo um capivara, já sacrifiquei a dama algumas vezes em partidas pela internet e em torneios, e acredito que todo enxadrista que possua uma certa experiência já tenha realizado essa manobra algum dia. Acontece que existem sacrifícios de dama pertencentes a combinações tão grandiosas e tão profundas, que acabaram se tornando famosos, ficando registrados para a posteridade em livros e manuais de xadrez, e que por isso valem a pena ser conhecidos pelos entusiastas do jogo e enxadristas em geral.




Depois de postar a última publicação aqui no blog, que trata exatamente desse tipo de sacrifício, achei por bem expor também, como complemento da publicação anterior, uma coletânea de sacrifícios de damas que ganharam destaque na literatura enxadrística... daí, quando comecei a pesquisar para selecionar os sacrifícios que eu iria publicar, deparei-me com uma magnífica matéria sobre o assunto, que foi postada no blog Cidade do Xadrez (cidadeladoxadrez.blogspot.com), do MF Carlos Henrique Pinto, no dia 1º de abril de 2011. Na referida publicação, o MF Carlos Henrique apresenta nada mais nada menos que 34 diagramas mostrando sacrifícios de dama que se tornaram célebres, a exemplo dos inesquecíveis sacrifícios executados por Adolf Anderssen nas partidas conhecidas como "A Imortal" e a "Sempre-Viva".
Entusiasmado com tal descoberta, e me reconhecendo incapaz de elaborar um conteúdo mais completo sobre a matéria, tomei a liberdade de literalmente "copiar e colar" a matéria do MF Carlos Pinto no meu blog, evidentemente tomando o cuidado de dar ao autor os créditos pela excelente e instrutiva publicação. Além disso, para não tornar esta postagem demasiadamente extensa, selecionei 20 dos 34 diagramas presentes na matéria original, os quais passo a reproduzir a seguir. Vamos lá:


OS GRANDES SACRIFÍCIOS DE DAMA*

O espetacular sacrifício de dama é uma das manobras que mais deleite e admiração produzem entre os aficcionados e que provoca maior vibração entre o público que presencia uma partida onde se realiza tal classe de combinação. A entrega da dama se efetua quase invariavelmente quando o que executa a manobra há calculado com precisão as conseqüências imediatas e tem a certeza de obter em seguida a posição claramente ganhadora, sendo contadas as ocasiões em que se realiza um sacrifício de posição. É muito frequente a entrega da dama em troca das duas torres, pois isso deixa de ser uma combinação, pois é simplesmente a troca de valores. Já é sabido que duas torres são equivalentes a uma dama e em muitos casos, especialmente no final sem outras peças, resultam mais poderosas. Sem embargo, em algumas oportunidades se há efetuado o sacrifício de dama sem que se vislumbre uma definição mais ou menos imediata e é precisamente em tais ocasiões onde se põem de manifesto o grande mestre, que sabe calcular profundamente as alternativas e possibilidades de uma posição complexa e chega a ver com claridade uma situação de mate o que resulte desastrosa para o adversário. Começaremos a tratar o tema com a presentação de vários exemplos simples e instrutivos para o estudante e logo passaremos a ver lúcidas combinações, algumas das quais adquirem hierarquia de obras de arte, pela beleza de suas concepções. Vejamos o primeiro exemplo

Lilienthal - Capablanca
Hastings, 1935

O jovem grande mestre húngaro Lilienthal e o ex-campeão mundial José Raúl Capablanca. Frente a tão qualificado adversário, Lilienthal realizou uma brilhante manobra baseada no sacrifício de dama, o que proporciona uma merecida e elegante vitória. O jogo seguiu assim: 1.exf6! Dxc2 2.fxg7 Tg8 3.Cd4 De4 não há nada melhor que isso. [3...Db2 as brancas ganham com 4.Tae1+ Ce5 5.Txe5+ Rd7 6.Td5+ Re8 7.Te1+] 4.Tae1 Cc5 5.Txe4+ Cxe4 6.Te1 Txg7 7.Txe4+ e as pretas abandonaram. 7...Rf8 [7...Rd7 8.f6 Tg6 9.Te7+ Rd6 10.Cb5+ Rc5 11.Ca7+-] 8.Ae7+ Rg8 9.Af6 Th7 10.Cc6 1-0


Torre, Carlos - Lasker, Emanuel
Moscou, 1925

Esta famosa combinação do "Moinho de Vento", foi jogada pela primeira vez pelo campeão mexicano Carlos Torre contra o famoso campeão do mundo Emanuel Lasker. A dama branca está cravada pelo seu bispo em g5, mas uma relativa cravada, pois mais absoluta importância é a cravada sobre o rei! 1.Af6! Dxh5 2.Txg7+ Rh8 3.Txf7+ Rg8 4.Tg7+ Rh8 5.Txb7+ Rg8 6.Tg7+ Rh8 7.Tg5+ Rh7 8.Txh5 Rg6 Lasker luta ingenuamente a fim de recuperar a peça perdida, mas a vantagem material das brancas é decisiva. 9.Th3 Rxf6 10.Txh6+ com material decisivo de vantagem. 1-0


Bernstein - Capablanca
Moscou, 1914
Esta clássica posição é arrematada com muita elegância e beleza, explorando o tema da fraqueza na última fila. 1...Db2! nesta posição as brancas abandonaram. [As pretas poderão ter melhor jogo depois de 1...Db1+ 2.Df1 Dxa2 (não 2...Td1?? 3.Tc8+ com mate ) ] 2.Tc8!? [2.Tc2 Db1+ 3.Df1 Dxc2; 2.De1 Dxc3 3.Dxc3 Td1+ 4.De1 Txe1#] 2...Db1+ 3.Df1 Dxf1+ 4.Rxf1 Txc8 0-1


Adams - Torre,C.
Nova Orleans, 1920
1.Dg4! Db5 [1...Dd8 2.Dxc8] 2.Dc4!! Dd7 3.Dc7!! Db5 4.a4! [4.Dxb7? Dxe2! 5.Txe2 Tc1+ 6.Te1 Tcxe1+ 7.Cxe1 Txe1#] 4...Dxa4 5.Te4! Db5 6.Dxb7! as pretas devem entregar a sua dama para evitar o mate na última fila. Esta é talvez a mais famosa de todas as combinações baseadas no tema "mate na última fila". 1-0


 Anderssen, A. - Dufresne, J. [C52]
"A Sempre Viva" - Berlim, 1852

1.e4 e5 2.Cf3 Cc6 3.Ac4 Ac5 4.b4 Axb4 5.c3 Aa5 6.d4 exd4 7.0-0 d3 8.Db3 Df6 9.e5 Dg6 10.Te1 Cge7 11.Aa3 b5 12.Dxb5 Tb8 13.Da4 Ab6 14.Cbd2 Ab7 15.Ce4 Df5 16.Axd3 Dh5 17.Cf6+ gxf6 18.exf6 Tg8 19.Tad1 Dxf3 20.Txe7+ Cxe7

Esta posição é da famosa partida conhecida como "A Sempre Viva" que surgiu da abertura do Gambito Evans. 21.Dxd7+ Rxd7 22.Af5+ Re8 [22...Rc6 23.Ad7#] 23.Ad7+ Rf8 24.Axe7# 1-0


 Anderssen, A. - Kieseritsky, L. [C33]
"A Imortal" - Londres, 1851

1.e4 e5 2.f4 exf4 3.Ac4 Dh4+ 4.Rf1 b5 5.Axb5 Cf6 6.Cf3 Dh6 7.d3 Ch5 8.Ch4 Dg5 9.Cf5 c6 10.g4 Cf6 11.Tg1 cxb5 12.h4 Dg6 13.h5 Dg5 14.Df3 Cg8 15.Axf4 Df6 16.Cc3 Ac5 17.Cd5 Dxb2 18.Ad6 Dxa1+ 19.Re2 Axg1

20.e5! Ca6 21.Cxg7+ Rd8 22.Df6+! este é o momento do adeus à dama: as pretas têm ao todo um stock de munição, e as brancas somente tem sua dama e três peças ligeiras, pois é mais do que suficiente. 22...Cxf6 23.Ae7# 1-0


Alekhine, A. - Colle, E.
Paris, 1925
A situação parece tranquila e equilibrada e nada faz pressagiar um arremate rápido. Pois se produz de repente um sacrifício de dama totalmente inesperado e o rei das pretas se acha em uma rede de mate pouco habitual porque está formada em grande parte por suas próprias peças. 1.Dxd7! Txd7 2.Te8+ Rh7 3.Tcc8 a dama preta ocupa o pior lugar possível 3...Td8 com a última esperança de liberar a casa para o rei preto graças ao xeque de dama em c1. 4.Texd8 1-0


Kasparov, G. - Karpov, A.
Moscou - Campeonato Mundial, 1985
1.Dxd7!! Segundo a combinação Alekhine-Colle que o leitor já conhece. Para Kasparov é Alekhine seu ídolo. 1...Txd7 2.Te8+ Rh7 3.Ae4+ as pretas abandonaram. Este sacrifício de dama teve um papel mais importante que a vitória na partida. A pontuação do encontro estava igualada, pois minha moral se achava em alta e perdi a forma definitivamente. Ao término deste encontro cedi minha coroa a Garry Kasparov. A isso se chama não vê o sacrifício de dama a tempo... 1-0


Tal, M. - Suetin, A.
Tbilisi, 1970

Ao atacar a dama branca com um de seus peões, as pretas esperavam sair do tranco, pois ... 1.Dxe5! Tal troca sua dama pela única peça preta ativa e demonstra agora a força do par de bispos colaborando com duas torres muito bem situadas. 1...dxe5 2.exf7+ e as pretas abandonaram. 2...Rd7 as brancas ganhavam da seguinte forma. [2...Rf8 3.Ah6#] 3.Af5+ Rc6 4.Ae4+ Cd5 5.Axd5+ Rd7 6.Axa8+ Re7 7.Ag5+ Rf8 8.Ah6+ Re7 9.f8D+ 1-0


Reti - Tartakower
Viena, 1910
O sacrifício de dama, atraindo o rei preto para a casa d8, onde levará um mortal xeque descoberto e duplo. 1.Dd8+ Rxd8 2.Ag5+ Re8 [2...Rc7 3.Ad8#] 3.Td8# 1-0


Kasparov - Petrosian
Tilburg, 1981

Uma combinação nem sempre se baseia em um só sacrifício. Da mesma maneira isto é válido para o sacrifício de dama. O exemplo acima primeiro se entrega a dama e em continuação outra peça. 1.Dxd5+! exd5 2.Axd5+ Ra7 3.Txa6+! Rxa6 4.Ta3+ e mate na jogada seguinte. O final é excepcionalmente raro entre jogadores de elevada categoria e por este motivo não passou "de encenação". Pois Petrosian havia impedido o sacrifício duas jogadas antes com uma sutil manobra. 1-0


Petrosian - Pachman
Bled, 1961
1.Dxf6+!! Rxf6 2.Ae5+ Rg5 3.Ag7! as pretas abandonaram diante do iminente mate. 1-0


 Keres - Spassky
Gotemburgo, 1955
A jogada inesperada, para o preto 1.Dxg7+! obriga a abandonar. Depois de 1...Rxg7 2.Cxd7+ Rg8 3.Cf6+ Rf7 [3...Rh8 4.Cxe8+] 4.Cd5+ e o branco manteria um bispo de vantagem. 1-0


Keres - Petrosian
Bled, 1959

Golpe inesperado. 1...Dxf4+!! desvia a dama inimiga da defesa de g1 e permite dar mate. A 2.Dxf4 segue 2...Th1 mate. 0-1


Petrosian - Spassky
Campeonato do Mundo  - Moscou (10), 1966

A posição do diagrama(é resultado de um complicado jogo combinativo) foi predeterminado por Petrosian. Escolhemos como ilustração do motivo que se baseia nas particularidades "geométricas" das peças. Se o rei preto estivesse em h8, o branco poderia ganhar a dama e a torre com a ajudo do duplo de cavalo. Se pode realizar com um elementar sacrifício de atração, exatamente um sacrifício aparente. 1.Dh8+ Rxh8 2.Cxf7+ Rg7 3.Cxg5 o branco tem ganho a torre, tem simplificado a posição e tem um cavalo a mais. 1-0


Karpov, A. - Chandler, M.
Bath, 1983

O bispo branco acaba de colocar-se em f3 e as pretas o expulsaram de lá com ...g4. Depois de Axe4, Axe4; Df2, f5 a luta haveria sido tensa. Pois o branco recuou imprudentemente o seu bispo a g2, deixando que o meu adversário jogasse uma elegante combinação. 1...Dxg2+!! 2.Rxg2 Cxg3! 3.Db5! Th6 4.Rg1 cxb5 0-1


Alekhine - Lasker
Zurich, 1934
A partida chegou a uma rápida conclusão mediante 1.Dxg6!! Depois de 1...hxg6 2.Th3+ Ch6 3.Txh6# 1-0


Simagin - Abramson
URSS, 1960
1.Dh6! Axh6 2.Txh6 g5 (ameaçava 3. Th8+ Rg7 4.T1h7 mate) 3.Th8+ Rg7 4.T1h7+ Rg6 5.Ad3+ Ce4 6.Axe4+ f5 7.Tg7# 1-0


Mecking - Rocha
Mar del Plata, 1969
Uma bonita combinação de desvio, feito com o sacrifício de dama. Uma obra genial do nosso Mequinho. 1.Tb1+ Ra7 2.Dd4+!! um sacrifício de dama decisivo. 2...Dxd4 3.Cxc6# 1-0


Abrahams - Thynne
Liverpool, 1932

Por encaminhamento do rei contrário. Estes casos são muito frequentes e instrutivos.

As brancas sacrificam a dama para dar mate. 1.Dg8+! Rxg8 2.Cg6 ameaça de mate imparável. 1-0


Espero que os amigos tenham gostado dessa excelente compilação, tão rica e fascinante... sem dúvida vale a pena analisar cada uma dessas posições sobre o tabuleiro e tentar sentir um pouco da emoção que os autores dessas belíssimas entregas de dama devem ter experimentado em suas partidas ao vivo. E para você, amigo(a) leitor(a), qual foi o mais bonito dos 20 sacrifícios de dama mostrados aqui? 
Deixe sua opinião nos comentários! Até breve!!

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

O SACRIFÍCIO DE DAMA


Finalmente chegou a hora de mostrarmos uma linda combinação! E essa combinação envolve o sacrifício da dama, a peça mais poderosa do jogo de xadrez, e por isso mesmo é considerado o mais espetacular sacrifício de todos, embora eu não concorde com essa opinião (em outra postagem explicarei o porquê disso). Vamos lá: a posição mostrada na imagem abaixo ocorreu na partida entre Edward Lasker e George Thomas, jogada em Londres, no ano de 1911.




Na posição do diagrama, a vez de jogar pertence às brancas, e elas realizam o surpreendente lance 11. Dxh7+!!, sacrificando a dama por um peão e obrigando o rei negro a capturá-la para permanecer vivo na partida. Após a captura 11... Rxh7, que é obrigatória, as brancas jogam 12. Cxf6+ (xeque duplo e a descoberto), ao que as negras são obrigadas a jogar 12... Rh6, pois se levarem o rei à casa h8, a outra fuga possível, elas levam mate com Cg6#. A combinação prossegue com 13. Ceg4+ Rg5 14. h4+ Rf4 15. g3+ Rf3 16. Be2+ Rg2 17. Th2+ Rg1 e 18. Rd2 mate!!
Impressionante, não? Estamos diante de um belíssimo sacrifício de dama, em que as brancas obrigaram o rei preto a atravessar todo o tabuleiro, partindo da casa g8 e indo até a casa g1, onde levou xeque-mate. Observe o leitor que todos os lances das pretas foram forçados, isto é, eram os únicos movimentos que podiam ser feitos na posição! Esta é a essência da combinação: um sacrifício de peça(s) combinado com uma sequência forçada de lances (daí o nome combinação), levando o lado ativo a ganhar uma vantagem ou aplicar o xeque-mate, e produzindo o efeito estético que enche nossos olhos com a beleza do xadrez! Será que alguém ainda duvida que o xadrez é uma arte??

A partida completa entre Edward Lasker e George Thomas pode ser visualizada clicando aqui: https://www.chessgames.com/perl/chessgame?gid=1259009&fbclid=IwAR30EtWvDkk4son7apIPzYGbDS-mlbfQCWYpsmL6NVdF1_c_L8H3uBOFJNg

terça-feira, 12 de novembro de 2019

PENSAMENTO DO DIA


"Para mim, o xadrez é ao mesmo tempo um jogo, um esporte, uma ciência e uma arte. E talvez até mais do que isso. Há algo difícil de explicar para quem não conhece bem o jogo. É preciso primeiro aprender a jogá-lo corretamente, a fim de saborear sua riqueza" (GM Bent Larsen).


Bent Larsen (1935-2010)
 

domingo, 10 de novembro de 2019

COMBINAÇÃO, UM PARADOXO DO XADREZ


Acredito eu que todo iniciante de xadrez, quando começa a estudar a teoria enxadrística e a reproduzir as primeiras partidas de Mestres e Grandes Mestres, fica fascinado pelo jogo combinatório. Foi exatamente isso o que aconteceu comigo, nos idos de 1996, quando eu era apenas um jovem estudante do Ensino Médio e me deparei pela primeira vez com um livro de xadrez, voltado para principiantes, mas que já trazia partidas famosas, combinações, análises de posições e problemas. Como já mencionamos anteriormente aqui no blog, de acordo com a definição do Grande Mestre estadunidense Yasser Seirawan, “a combinação é um sacrifício, acompanhado de uma sequência forçada de lances, que explora peculiaridades específicas de uma posição, na esperança de atingir certo objetivo”. Para Kasparov, as combinações e as táticas são os elementos que elevam o xadrez à condição de arte. E por que as combinações e sacrifícios de peças exercem tanto fascínio sobre os enxadristas, principalmente sobre os que estão se iniciando no estudo do jogo? A razão é simples.


Mikhail Tal, "O Mago de Riga", foi um grande especialista no jogo combinatório


Esse fascínio ocorre porque a combinação constitui um dos maiores, senão o maior, paradoxo existente no xadrez, pois, quando estamos aprendendo a jogar, somos ensinados que devemos tentar proteger nossas peças, ao mesmo tempo em que devemos tentar capturar as peças do adversário, para assim vencermos a partida. Porém, durante uma combinação, esse ensinamento perde seu valor, e a situação se inverte por completo: ao invés de capturarmos as peças do adversário, nós entregamos a ele nossas peças, seja para dar xeque-mate, seja para obter uma vantagem, que pode ser do tipo material (maior quantidade de peças) ou posicional (melhor posicionamento das peças).
Essa entrega de peças, conhecida por “sacrifício” no jargão enxadrístico, é o que proporciona tanta beleza e encanto ao xadrez, produzindo um efeito estético bastante apreciado. Não é à toa que quase todas as partidas mais brilhantes da história do xadrez apresentam o sacrifício de peças como característica principal; e, quando a peça sacrificada é a Dama, a mais poderosa do jogo, o brilhantismo e a beleza da combinação se tornam ainda mais evidentes.

Nas próximas postagens, estaremos apresentando aos leitores algumas das mais belas combinações já executadas até hoje... aguardem!
 

sábado, 9 de novembro de 2019

O REGRESSO DE KARPOV!


Impacto no xadrez mundial: Anatoly Karpov voltará a jogar um torneio depois de uma década*



A paixão pode mais do que a idade. Os desafios geram mais adrenalina do que observar o palco de fora. O desejo de provar a si mesmo supera o pulso do conformismo. Anatoly Karpov marcou uma época no xadrez mundial. Desde meados dos anos 70, durante a Guerra Fria, ele foi o campeão que reinou por uma década, para deleite do regime soviético. Até que chegou um jovem Garry Kasparov e o destronou em 1985.
"Tolia", o de semblante pétreo, o exímio jogador posicional que apertava como uma jiboia até espremer o rival e depois lhe dar um golpe, retornará ao ringue em 2020, aos 68 anos. 


Karpov regressa aos tabuleiros para um torneio, aos 68 anos


Sim, 35 anos depois daquele histórico match pelo título mundial em Moscou, e 10 anos após seu último torneio, disputado em San Sebastian em 2009. O mundo do xadrez já o celebra. "Estamos muito orgulhosos de receber um dos melhores jogadores de xadrez de todos os tempos para o próximo torneio. Será a primeira aparição de Karpov em um torneio round robin de nível top nos últimos dez anos", foi o breve comunicado do torneio TePe Sigeman & Co, que ocorrerá entre 29 de abril e 5 de maio de 2020 em Malmö, Suécia.
Embora Karpov tenha disputado partidas em ritmo pensado ou rápidas ocasionais em exibições ou torneios por equipe, como a Bundesliga alemã, no próximo ano ele voltará a jogar em um torneio de todos contra todos. Entre os rivais confirmados para enfrentar o russo de 2.617 pontos ELO, estão o sueco Nils Grandelius (2691; bicampeão em 2017 e 2018), o espanhol Alexei Shirov (2664), o tcheco David Navara (2717) e o prodígio indiano Nihal Sarin (2610), 15 anos.


O jovem Anatoly Karpov


O torneio em que Karpov retornará entre a elite tem uma tradição de um quarto de século. O Limhamns Chess Club da Suécia o organiza desde 1993 na terceira cidade daquele país nórdico, com o apoio do advogado e patrono Johan Sigeman. E uma de suas características é convidar jogadores de diferentes idades e estilos de jogo.
Karpov foi um fiel representante da União Soviética, país pelo qual jogou em seis Olimpíadas, entre 1972 e 1988, com a medalha de ouro em cada uma delas. Seu excelente desempenho nessa competição fala por si só de seu talento: ao vencer 43 partidas, empatar 23 e perder apenas duas, ele alcançou 54,5 pontos em 68 possíveis, com uma eficácia de 80%. Bestial.
A renúncia de Fischer em defender seu título coroou Karpov como o 12º Campeão Mundial de xadrez, título que ele defendeu em Baguio 1978 e em Merano 1981 contra Kortchnoi. E por mais que Kasparov o tenha destronado, seu legado é imenso, seu estilo fez escola e seu retorno pela grande porta é bem festejado por fãs e Grandes Mestres. 


* Matéria publicada no jornal Clarin Deportes, da Argentina, em 23 de outubro de 2019. Reproduzimos a matéria parcialmente, com tradução livre do espanhol.
 

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

DICAS DE MAGNUS CARLSEN PARA MELHORAR NO XADREZ


Desde que foi oficialmente instituído, no ano de 1886, o título de Campeão Mundial de xadrez é cercado por uma espécie de aura misteriosa, e o seu detentor é visto como uma figura quase mística, um super-humano  que foi capaz de sobrepujar todos os seus oponentes e chegar ao ponto mais alto do Olimpo do xadrez, de onde reina, absoluto, sobre todos os demais praticantes do jogo! Diante disso, é natural que procuremos ouvir com atenção e aceitar os conselhos vindos dessa figura tão importante do universo enxadrístico. 

Nossa reação não é diferente quando se trata do atual Campeão Mundial de xadrez, o norueguês Magnus Carlsen. Ouvi-lo falar sobre a sua compreensão e entendimento a respeito do jogo é sempre fascinante, e, pensando nisso, resolvi compartilhar com o(a)s leitore(a)s do blog o vídeo a seguir, que está circulando na internet já há alguns meses, no qual o genial Carlsen nos presenteia com 13 dicas sobre como melhorar o nosso nível no xadrez. O vídeo tem cerca de 4 minutos de duração e está legendado em português. Vale a pena reservar um tempinho para ouvir as palavras do Campeão. Espero que gostem!



quinta-feira, 7 de novembro de 2019

OS REIS SEM COROA - AKIBA RUBINSTEIN


Dando continuidade a nossa série "Os reis sem coroa", dedicada aos enxadristas mais fortes da história que não chegaram a se tornar campeões mundiais, hoje falaremos um pouco a respeito da vida e da carreira do genial Akiba Rubinstein, outro gigante dos tabuleiros.


AKIBA RUBINSTEIN


Akiba Rubinstein (1882-1961) foi um formidável enxadrista da primeira metade do século XX. Esteve entre os melhores do mundo de sua época. Detentor de uma técnica superior, a influência de sua maestria se faz sentir até os dias atuais.
Nascido na Polônia, no seio de uma família judia, Rubinstein começou a se dedicar seriamente aos torneios em 1903. Seu virtuosismo cresceu a partir de 1907, e em 1912 ele venceu cinco grandes torneios consecutivos, motivo pelo qual aquele ano ficou conhecido como o "Ano de Rubinstein" (ver matéria publicada aqui no blog: https://batalhadementes.blogspot.com/2019/08/o-ano-de-rubinstein.html)
Nessa época Rubinstein estava claramente no seu auge, e começou a negociar com Emanuel Lasker um encontro pelo Campeonato Mundial. Infelizmente, ele foi muito mal no célebre torneio de São Petersburgo de 1914, e com isso perdeu seu possível apoio. Pouco tempo depois, eclodiu na Europa a I Guerra Mundial, que paralisou as atividades do mundo do xadrez. Quando o conflito terminou, em 1918, Rubinstein já não tinha a mesma força de antes; sua melhor fase já havia passado, e por essa razão o desafio pelo título mundial acabou perdendo o sentido, já que havia concorrentes mais fortes almejando a coroa, como Capablanca e Alekhine.



Akiba Rubinstein (1882-1961)



Mesmo tendo experimentado um declínio na sua força de jogo, na Olimpíada de Hamburgo, em 1930, Rubinstein, aos 48 anos, realizou um outro feito espetacular: ele conseguiu a medalha de ouro no primeiro tabuleiro jogando pela equipe polonesa, com 13 vitórias e 4 empates! Vale destacar que essa foi a única vez em que a Polônia se coroou campeã olímpica. Na Olimpíada seguinte (Praga-1931), jogando novamente no primeiro tabuleiro, Rubinstein obtém a medalha de prata, sendo superado apenas pelo então Campeão Mundial Alekhine.
Retira-se das competições em 1932, por causa de transtornos mentais (provavelmente esquizofrenia), e depois disso nunca mais pôde exibir sua antiga genialidade. Sua contribuição para a teoria do xadrez foi enorme, havendo muitas linhas e esquemas de jogo que foram idealizadas e postas em prática por ele. Para finalizar nossa matéria, vamos desfrutar um pouco do talento de Rubinstein assistindo à partida mostrada no vídeo a seguir, em que ele derrota ninguém menos que o todo-poderoso José Raul Capablanca!



quarta-feira, 6 de novembro de 2019

VOCÊ SABIA?


O campeão nacional absoluto mais jovem de todos os tempos e de todas as modalidades esportivas é um jogador de xadrez. Trata-se do peruano Julio Ernesto Granda Zuñinga, campeão nacional aos 6 anos de idade!! Julio Granda tem 52 anos (data de nascimento: 25.02.1967), foi durante muito tempo o melhor enxadrista da América do Sul e atualmente ocupa a posição de número 122 no ranking mundial da FIDE, com um rating clássico de 2644 pontos.


GM Julio Granda (1967-     )

terça-feira, 5 de novembro de 2019

EM QUE IDADE SE DEVE COMEÇAR A JOGAR PARA SE TORNAR UM CAMPEÃO?


O xadrez pode ser aprendido em qualquer idade, mas, para se alcançar um bom nível, é preciso que a aprendizagem do jogo seja feita numa idade mais precoce. Quando pensamos sobre isso, somos levados a achar que, quanto mais cedo ocorre a aprendizagem, maiores são as probabilidades de um jogador chegar ao nível mais alto de especialização no xadrez, representado pelo título de Grande Mestre. Porém, parece que não é bem assim que as coisas funcionam na prática. A esse respeito, já foram realizados diversos estudos. Em um desses estudos, dois grupos de Grandes Mestres foram comparados por meio de duas variáveis: a idade em que se produziu a aprendizagem e o primeiro resultado de Grande Mestre. O primeiro grupo havia aprendido a jogar antes dos 10 anos; o segundo, depois.

O resultado que se obteve foi interessante: os integrantes do primeiro grupo demoraram em média 4 anos a mais para conseguir seu primeiro resultado, mas se mantiveram com esse nível de rendimento durante mais tempo. Por outro lado, os integrantes do segundo grupo necessitaram de menos tempo para conseguir seu primeiro resultado de Grande Mestre, mas sua permanência nesse nível foi mais curta. Por exemplo, Max Euxe aprendeu a jogar aos 5 anos e conseguiu seu primeiro resultado notável aos 26, enquanto que Andor Lilienthal, que aprendeu aos 15 anos, obteve seu primeiro resultado de Grande Mestre aos 25. Contudo, além da idade, os pesquisadores reconhecem que existem outros dois critérios fundamentais para se alcançar um alto nível, tanto no xadrez quanto em outros esportes: a motivação e o treinamento sistemático.


"Misha" Osipov, prodígio russo do xadrez, começou a jogar aos 3 anos

domingo, 3 de novembro de 2019

A IMPORTÂNCIA DOS TEMPOS DE VANTAGEM


Conta a lenda que o Barão de Münchhausen (personagem fictício), em um torneio de Moscou, em 1935, propôs aos mestres participarem de um divertido jogo. Oferecia tantas peças de vantagem quantos movimentos de jogo lhe dessem em troca. Os mestres aceitaram o desafio de Münchhausen, e se expressaram em tom jocoso. 
̶  Bem, vamos experimentar, primeiro, com todas as peças, disseram rindo.
̶  Se me tiram sete peças eu lhes dou mate em sete jogadas, que são meus tempos de vantagem  ̶  observou Münchhausen.




A sequência de lances de Münchhausen foi a seguinte: 1. e4, 2. g4, 3. e5, 4. g5, 5. g6, 6. e6, 7. exf7 mate.
Os mestres disseram então:
̶  Parece que demos tempos de vantagem excessivos. Experimentaremos com todas as peças, menos o bispo do rei.
A resposta do barão foi a seguinte: 1. e3, 2. Bc4, 3. g4, 4. g5, 5. g6, 6. Bxf7 mate. 




̶  Bem, desta vez lhe deixaremos o cavalo do rei, responderam rapidamente os mestres.
A continuação agora foi: 1. Cf3, 2. Cg5, 3. e4, 4. e5, 5. e6, 6. exf7 mate.   




Então disseram:
 ̶  Agora iremos deixar o bispo e o cavalo em f1 e g1. 
 ̶  Neste caso, os previno de que me serão de grande utilidade essas duas peças, disse Münchhausen, e anunciou mate em cinco jogadas.
Efetivamente: 1. e4, 2. Bc4, 3. Cf3, 4. Cg5, 5. Bxf7 mate.




A anedota evidentemente não é verdadeira, mas é útil para mostrar, aos que se iniciam no jogo, a importância dos tempos de vantagem no xadrez.


(Extraído do livro O xadrez dos Grandes Mestres: 400 conselhos para melhorar seu nível enxadrístico. MANZANO, A. L.; GONZÁLEZ, J.M. Porto Alegre: Artmed, 2002).

sexta-feira, 1 de novembro de 2019

SEÇÃO MEMÓRIA


Na Seção Memória de hoje, celebramos o aniversário de nascimento de Vasily Nikolayevich Panov, nascido em 1º/11/1906.
Panov foi um jogador, escritor e jornalista soviético de xadrez. Vencedor do Campeonato da cidade de Moscou em 1929, ele também jogou em cinco campeonatos de xadrez da URSS, de 1935 a 1948. Sua maior vitória em torneios foi em Kiev, em 1938. Ele recebeu o título de Mestre Internacional pela FIDE em 1950. 


Vasily Panov (1906-1973)


Panov é mais conhecido por seus escritos sobre xadrez e trabalho teórico sobre as aberturas, fase da partida em que ele era considerado uma grande autoridade. Seus muitos livros incluem um guia para iniciantes, biografias de Alekhine e Capablanca e o Kurs debyutov (1957), o livro sobre abertura mais vendido da Rússia. Duas de suas obras mais conhecidas são os livros "ABC das aberturas" e "Xadrez Elementar".






O mestre russo realizou importantes contribuições para a teoria da Defesa Caro-Kann e da Abertura Ruy Lopez. Uma variante da Caro-Kann, que se caracteriza pelos movimentos 1.e4 c6 2.d4 d5 3.exd5 cxd5 4.c4, foi batizada de Ataque Panov (também chamada de Ataque Panov–Botvinnik). Panov faleceu em Moscou, no dia 13/01/1973.