quarta-feira, 11 de novembro de 2020

SÄMISCH, UM PERSONAGEM SINGULAR

 

Friedrisch Sämisch foi um Grande Mestre e teórico do xadrez, nascido em Berlim, em 1896. Por causa da sua longevidade, ele pôde enfrentar três gerações de Grandes Mestres e campeões mundiais. Contribuiu para o prestígio do xadrez alemão nos anos 1920, juntamente com os formidáveis Lasker e Tarrasch. Nessa época, quando alcançou a elite do xadrez mundial, "cruzava espadas" com Capablanca e Alekhine. Da geração seguinte, ele se defrontou com Keres, Flohr, Botvinnik e Reshevsky. Seu maior êxito foi o 3º lugar no fortíssimo torneio de Baden-Baden (1925), atrás de Alekhine e Rubinstein, mas superando a Bogoljubow, Spielmann, Tartakower, Nimzowitsch, Reti e Tarrasch, entre outros. 

 

Friedrisch Sämisch (1896-1975)

 

Sämisch era um clássico boêmio do xadrez. De 1920 a 1930 vivia exclusivamente em hotéis; viajava com frequência para participar dos grandes torneios, e sua vida era muito controlada, possuindo uma só mala. Ao invés de lavar seu traje, comprava um novo; tirava sua roupa íntima suja e comprava uma nova. Desta maneira nunca tinha problemas com sua bagagem, ao contrário do seu companheiro Alekhine, que sempre viajava com 24 malas, três gatos e uma esposa. Vivia de um modo pouco convencional, sem alardes nem luxos. Tivesse ou não dinheiro, sempre viajava de táxi. No pior dos casos, surpreendia os seus amigos: "Querido amigo, não tenho um só centavo; poderia me emprestar quatro ou cinco marcos para o táxi?". Ninguém podia rechaçar os seus humildes desejos. Os conhecidos mestres alemães Heinicke, Kieninger e Lehmann facilitavam a vida do mestre em sua velhice. Em certa ocasião, ao chegar em casa após um longo período de ausência disputando torneios, deparou-se com um bilhete deixado por sua esposa, que decidiu abandoná-lo porque não suportava que ele gostasse mais do xadrez do que dela. 

Quando jogava xadrez, Sämisch estava mais interessado no aspecto artístico do que no aspecto competitivo, por isso nunca se preocupou com o apuro de tempo em suas partidas. Isto lhe custava muitos pontos; em Busum (1969), estabeleceu uma marca difícil de romper: perdeu todos os seus jogos por tempo! Contudo, é preciso levar em consideração que nessa ocasião ele já contava com mais de 70 anos, idade em que o raciocínio normalmente se torna mais lento. No torneio de Karlsbad, em 1929, obteve o primeiro prêmio de brilhantismo graças à seguinte combinação:

 

Sämisch x Grünfeld - Karlsbad, 1929

 

43. Txf5!! Cxf5 44. Cg6+ Rg8 45. Te7 Tf7 Todas as peças estão taticamente defendidas:

a) 45. ... Cxh4 46. Tg7#

b) 45. ... hxg6 46. Dh7#

c) 45. ... Cxe7 46. fxe7

46. Txf7 Rxf7 47. Ce5+ Rf8 48. Dxh7 1-0 

 

Sämisch faleceu em 16 de agosto de 1975, vítima de um acidente vascular cerebral. Na atualidade, ele é lembrado por suas contribuições à teoria das aberturas, tendo duas das mais importantes variantes com o seu nome: variantes Sämisch da Defesa Índia do Rei e da Defesa Nimzoíndia, respectivamente:

  • 1.d4 Cf6 2.c4 g6 3.Cc3 Bg7 4.e4 d6 5.f3
  • 1.d4 Cf6 2.c4 e6 3.Cc3 Bb4 4.a3

Também recebem seu nome as seguintes variantes de menor importância, respectivamente da Defesa Alekhine e da Defesa Índia da Dama:

  • 1. e4 Cf6 2. e5 Cd5 3. Cc3
  • 1. d4 Cf6 2. c4 b6

Brevemente, voltaremos a falar a respeito de F. Sämisch, abordando um curioso episódio em que ele se envolveu numa partida contra o grande Capablanca... até lá!

 

FONTE: FREY, Kenneth. Ajedrez en cápsulas

 

TAL, O ENXADRISTA MAIS AMADO DA HISTÓRIA


Em nossa última postagem, falamos a respeito do aniversário de nascimento do GM Mikhail Tal, que se estivesse entre nós estaria completando 84 anos de idade. Como escrevi naquela publicação, não escondo a admiração que sinto pelo "Mago de Riga", e quanto mais leio a respeito dele, mais essa admiração aumenta. São numerosos na literatura enxadrística os depoimentos acerca da sua personalidade alegre, do seu caráter amigável, da sua notável inteligência e do seu refinado senso de humor. Os que tiveram o privilégio de conviver com Misha, como ele era carinhosamente chamado, costumam afirmar que ele estava sempre de bom-humor, rindo e contando piadas. Sua alegria era contagiante e seu carisma inigualável. Por tudo isso, estou convencido de que Mikhail Tal foi o enxadrista mais amado da história do xadrez! O trecho transcrito a seguir, retirado do 2º volume da obra Meus Grandes Predecessores, de Kasparov, nos traça um breve retrato da sua personalidade e evidencia o modo especial como Tal se relacionava com as pessoas, caracterizando-o como um antípoda do seu antecessor Botvinnik, em termos de comportamento:

"Em lugar do estrito, sério, ascético cientista, havia conquistado a coroa um genuíno artista do tabuleiro, um homem audaz, simpático e engenhoso. 'Misha comumente expressava seus pensamentos em forma aforística, encontrava palavras especiais, vívidas para eles', recorda Yuri Averbakh. 'Tinha talento para a amizade e sabia fazer as pessoas felizes, sobretudo em jantares e banquetes'. [...] Durante os dias do match [pelo Campeonato Mundial de 1960], as pessoas se apinhavam nas calçadas da avenida Tverskaya e na entrada do Teatro Pushkin [em Moscou], assistindo às partidas em um enorme tabuleiro mural. Milhares de pessoas receberam Tal na estação de Riga, e os mais entusiasmados o ergueram nos ombros desde o trem e, aos gritos de 'Misha, você é um gênio!', o levaram até a praça da estação, onde teve lugar uma grande comemoração."

Que relato empolgante, hein amigo(a)s? A foto abaixo reproduz exatamente o momento narrado no livro de Kasparov, em que Tal é carregado nos ombros pela multidão, após a conquista do título mundial de xadrez. Esse deve ter sido, sem dúvida, um dos instantes mais marcantes na vida do genial Mago de Riga! Sinceramente, não conheço na literatura enxadrística nenhum outro registro em que um enxadrista tenha sido tratado de forma tão calorosa pelos seus amigos e admiradores, depois de uma vitória! Muitos outros jogadores foram admirados e queridos ao longo dos tempos, mas certamente não com a mesma intensidade com que foi amado o grande Mikhail Tal!

 


segunda-feira, 9 de novembro de 2020

SEÇÃO MEMÓRIA

 

Hoje, dia 09 de novembro, rememoramos dois acontecimentos muito importantes para o mundo do xadrez. Em 09/11/1936, há 84 anos, nascia na Letônia Mikhail Tal, 8º campeão mundial de xadrez e um dos maiores gênios da Arte de Caíssa em todos os tempos. Não escondo a admiração que sinto por Tal, por tudo o que ele realizou dentro e fora dos tabuleiros. Já o citei diversas vezes aqui no blog, e ainda pretendo fazer isso outras vezes, pois ele é, juntamente com Kasparov, o meu maior ídolo enxadrístico. 

 

09 de novembro, aniversário de nascimento de M. Tal

 

E por falar em Kasparov, o outro fato marcante que gostaríamos de relembrar está relacionado com ele. No dia 09/11/1985, há 35 anos atrás, Garry Kasparov vencia Anatoli Karpov em match válido pelo Campeonato Mundial e se consagrava, assim, o 13º e mais jovem campeão mundial da história. Nesse dia tinha início um reinado que manteria o "Ogro de Baku", por 20 anos, no lugar mais alto do ranking internacional. O vídeo a seguir mostra alguns momentos dessa importante conquista (para abrir o vídeo, clique aqui).


sábado, 7 de novembro de 2020

SEÇÃO BATE & REBATE #14

 

Amigo(a)s, hoje na Seção Bate & Rebate iremos apresentar a entrevista de um enxadrista que já há vários anos figura na lista dos mais fortes do estado da Paraíba. Trata-se do jogador Doriedson Lemos, que tem em seu currículo o título de Campeão Paraibano de Xadrez de 2017 e de Campeão Norte-Nordeste de Blitz, também conquistado em 2017. Doriedson é um jogador bastante ativo, que participa com frequência de competições oficiais dentro e fora do estado, além de tomar parte nos torneios que vêm sendo promovidos pelo Clube de Xadrez de Campina Grande-PB, cidade onde reside atualmente. Segundo a listagem da FIDE de novembro de 2020, ele detém 2.125 pontos de rating clássico, ou seja, está próximo do nível de Mestre Nacional. Agradecemos ao colega Doriedson pela sua disponibilidade em conceder esta entrevista ao nosso blog, bem como ao colaborador Joaquim Virgolino pela realização da entrevista. 

 


NOME: Doriedson Vicente da Silva Lemos

IDADE: 31 anos

CIDADE NATAL: Monteiro-PB.

 

01 - Qual é a sua cor favorita? R.: Verde.

02 - Comida de que mais gosta? R.: Lasanha.

03 - Bebida preferida? R.: Cerveja.

04 - Um filme inesquecível? R.: As cinco pessoas que você encontra no céu.

05 - Qual o livro de xadrez mais interessante que você já leu? R.: Labirinto Siciliano, do GM Lev Polugaevsky.

06 - Uma música que marcou vida? R.: Vai ficar na saudade - Benito di Paula.

 
Obs.: Conheça a música escolhida pelo entrevistado assistindo ao vídeo a seguir: 


07. Qual o seu maior medo? R.: De mar aberto, água.

 

 

08. Um sonho? R.: Morar num sítio bem sossegado.

09. Quais as três pessoas que você adoraria convidar para jantar? R.: Meus pais e minha esposa.

10. Uma partida ou lance inesquecível de alguma lenda do xadrez? R.: Ivanchuk vs. Yusupov, match de Candidatos de 1991.

11. Quem é o seu jogador de xadrez favorito? R.: Ivanchuk.

12. Seu maior defeito? R.: Preguiça (risos).

13. Uma atriz ou ator? R.: Matt Damon.

14. Estilo musical preferido? R.: Rock.

 


 

15. Eu não tiro o chapéu para... R.: Covardia, trairagem.

16. Qual ensinamento ou princípio do xadrez é útil na sua vida cotidiana? R.: Prever alguma situação, consequências das escolhas etc.

17. O que você salvaria da sua casa se ela estivesse pegando fogo? (Apenas duas coisas)  R.: Meu colchão e um lençol.

18. O que você aprecia em uma pessoa? R.: A amizade.

19. Existe alguma coisa que você gostaria de aprender? R.: Tocar violão.

20. Que animal você seria? R.: Cachorro.

 


 

21. Brasil? R.: Melhor lugar do mundo. 

22. Deus? R.: Tudo.

23. Um arrependimento? R.: Não ter concluído o curso de Contabilidade.

24. Sexo? R.: Bom demais.

25. Seu hobby? R.: Corrida.

26. Uma mensagem que você gostaria de deixar para os nossos leitores: R.: Busque sempre fazer o melhor!

27. Doriedson Lemos por Doriedson Lemos: Companheiro fiel.


 

E assim concluímos mais uma entrevista da Seção Bate & Rebate... sábado que vem tem mais, até lá!


PENSAMENTO DO DIA

 

"Combinações são o diferencial no xadrez. Você precisa desenvolver suas habilidades em xadrez entendendo combinações. Praticamente todas as partidas de xadrez têm uma combinação. Você precisa aprender a reconhecer quando uma está disponível e precisa desferir o golpe! Se fizer isso, vencerá muitas partidas" (Vladimir Pafnutieff).

 

V. Pafnutieff, escritor e professor de xadrez

 

sexta-feira, 6 de novembro de 2020

QUESTÃO DE ARBITRAGEM - O TOQUE ACIDENTAL

 

Todo praticante da Arte de Caíssa conhece - ou pelo menos deveria conhecer - a famosa regra que diz: "Peça tocada, peça jogada". Essa é uma regra que deve ser rigorosamente cumprida em qualquer partida de xadrez, seja ela oficial ou amistosa. Ao tocar numa peça, o jogador demonstra sua intenção de efetuar o lance, por isso a peça tocada deve ser obrigatoriamente movida, ainda que isso custe a partida. Mas e se esse toque na peça for acidental? Sabemos que pode acontecer de o enxadrista querer jogar com uma peça e esbarrar em outra, principalmente quando ainda há muitas peças sobre o tabuleiro. Essa situação ocorreu no último encontro presencial entre enxadristas da minha cidade, no domingo passado. O jogador a quem cabia fazer o lance estava com a dama atacada por uma torre adversária, e quando ele se preparou para livrá-la do ataque, sua mão tocou acidentalmente em um peão que estava ao lado da dama. Iniciou-se então um debate para decidir se esse toque "de raspão" no peão geraria a obrigatoriedade de se jogar com ele. Na ocasião, eu defendi a opinião de que o toque, mesmo acidental, provoca a obrigação de jogar com a peça tocada, mas não é isto o que dizem as regras do xadrez.

 


 

A lei do xadrez atualmente em vigor, em seu artigo 4º, referente ao ato de mover as peças, mais precisamente no item 4.2.2, expressa que: 4.2.2 Qualquer outro contato físico com uma peça, exceto no caso de contato claramente acidental, deve ser considerado como intencional (grifo meu). Em outras palavras: quando o toque for acidental, o jogador não será obrigado a mover a peça tocada. No caso da partida mencionada, como o adversário do jogador que cometeu o toque acidental não exigiu que o lance de peão fosse executado, a partida prosseguiu normalmente. Por se tratar de uma situação que pode gerar dúvidas entre os amigos enxadristas, resolvi compartilhá-la aqui no blog, fazendo o devido esclarecimento a fim de elucidar a questão. Contudo, é importante que vocês, quando estiverem jogando sem a presença de um árbitro, tomem cuidado para não tocar em peças que não pretendem mover, para evitar possíveis conflitos com o adversário. Fica a dica!

 

quinta-feira, 5 de novembro de 2020

THE QUEEN'S GAMBIT, UM SUCESSO ESTRONDOSO

 

A minissérie The Queen's Gambit (ou O Gambito da Rainha, em português), que foi ao ar pela Netflix no final do mês passado, vem fazendo grande sucesso, para surpresa e satisfação dos fãs do xadrez no mundo todo. A minissérie é baseada no romance homônimo, de Walter Tevis. Ao contrário de outras obras midiáticas que abordam o nobre jogo, e que se revelaram relativos fiascos de audiência, The Queen's Gambit teve uma ótima aceitação por parte do público em geral, recebendo muitos elogios e críticas positivas: ela atingiu a incrível marca de 100% de aprovação no site Rotten Tomatoes, tornando-se uma das séries mais bem avaliadas da história da Netflix! Ela também foi muito bem avaliada pela crítica especializada: na opinião dos críticos, The Queen's Gambit é a melhor minissérie de 2020. Todo esse sucesso não deixa de ser surpreendente, afinal o xadrez nunca foi um jogo "atraente" para o grande público, sendo considerado por muitas pessoas como um jogo "chato" ou "para velhos", provavelmente por causa da postura inerte dos jogadores e pela ênfase na atividade mental em detrimento da atividade física. Acredito que vários fatores contribuíram para o sucesso da minissérie: além da boa qualidade da história, do elenco e da produção, temos pela primeira vez uma mulher disputando o lugar mais alto do ranking mundial em um esporte desde sempre dominado por homens. Essa quebra de paradigma pode ter estimulado o público feminino a acompanhar a trajetória da protagonista Beth Harmon, a fim de buscar inspiração nesses tempos difíceis, em que as mulheres ainda lutam por afirmação na sociedade e pela igualdade de direitos. Já para o público masculino que não se interessa por xadrez, certamente um atrativo especial para assistir à minissérie foi a beleza da atriz principal, a cativante e talentosa Anya Taylor-Joy. Fico feliz com o sucesso dessa grandiosa produção, e espero que The Queen's Gambit possa conquistar muitos novos praticantes para o nosso querido esporte! 

 

The Queen's Gambit, um grande sucesso de público e crítica

 

Para finalizar esta matéria, iremos apresentar um artigo publicado no site do GM Rafael Leitão, em que ele nos mostra 5 motivos pelos quais devemos assistir à minissérie The Queen's Gambit. Confiram!


5 Motivos Para Assistir “O Gambito da Rainha” – A Nova Série da Netflix*

 

A série “O Gambito da Rainha” (Netflix) foi lançada recentemente e despertou o interesse de enxadristas em todo o Brasil. A produção conta a história (de ficção) da enxadrista Beth Harmon rumo ao topo do xadrez mundial.

A série foi baseada na obra de Walter Tevis (1983). Scott Franck e Allan Scott são os produtores da atual versão e, segundo Leontxo Garcia (El País), contaram com os conselhos técnicos de Garry Kasparov e do técnico Bruce Pandolfini.

“O Gambito da Rainha” tem algumas distorções com relação ao mundo do xadrez “real”, mas licenças poéticas eram esperadas para que a produção ficasse acessível àqueles que não tem conhecimento sobre xadrez.

De todo modo, a série possui muitas coisas positivas e 5 delas você vai descobrir agora:

1- Beth Evoluiu Estudando os Clássicos

Apesar de nos primeiros episódios a série tratar a enxadrista como um prodígio que evoluiu vendo o tabuleiro e os movimentos das peças no teto, a série ganha contornos de realidade com a evolução acontecendo através de um método acessível a todos: o estudo dos clássicos.

Beth Harmon busca livros de partidas para evoluir. Como a série se passa na década de 1960, suas referências são José Raúl Capablanca, Alexander Alekhine e Mikhail Botvinnik. Os enxadristas americanos, Paul Morphy e Samuel Reshevsky, também são lembrados.

2- A Série Aborda o “Machismo” no Xadrez

“Xadrez não é para meninas!” Essa foi uma das frases machistas que a personagem escutou no início da carreira. Jogando, majoritariamente, contra adversários do sexo masculino, “O Gambito da Rainha” também sugere uma importante reflexão a respeito do machismo em torneios de xadrez.

3- Imortal de Morphy

Voltando a falar dos clássicos, em uma das vitórias de Beth Harmon, os produtores decidiram fazer referência a imortal de Paul Morphy contra o Duke of Brunswick. Na série, Beth aparece efetuando o lance 18. Db8+ Cxb8 e 19.Td8#. Sem dúvida uma bonita homenagem ao lendário enxadrista. Mas atenção, você precisa estar bem atento para perceber isso.

4- A Importância de uma Boa Condição Física

Mais um tema relevante tratado durante a série. Quem nunca foi convidado para tomar aquele vinho excelente na noite anterior a uma partida importante? Beth Harmon teve problemas sérios com o alcoolismo e a série mostra como cuidar da saúde é importante para ter bons resultados no xadrez.

5- Referência Oculta a Bobby Fischer

Nessa primeira temporada, em nenhum momento a série cita o nome de Bobby Fischer. Porém, a saga de Beth Harmon contra os soviéticos lembra muito a jornada de Bobby Fischer no Campeonato Mundial de 1972.

Além disso, quando Beth Harmon chega em uma praça e se depara com vários senhores, surge um personagem muito semelhante fisicamente a Bobby Fischer no fim da vida.

 

* Artigo do GM Rafael Leitão originalmente publicado em: https://rafaelleitao.com/gambito-da-rainha/.


segunda-feira, 2 de novembro de 2020

JOGANDO XADREZ COM UM "MORTO"

 

No mundo ocidental, desde a Idade Média o dia 02 de novembro é reservado para a celebração do Dia de Finados ou Dia dos Fiéis Defuntos. Essa data foi instituída pela Igreja Católica no século X, com o objetivo de se rezar pelas pessoas que partiram do plano físico, e para suplicar a Deus que as almas que estivessem no Purgatório pudessem alcançar o Paraíso. Na atualidade, apesar do grande processo de secularização que a civilização ocidental sofreu ao longo da modernidade, o Dia de Finados continua a ser uma data especial, na qual a memória dos entes queridos que já se foram nos vem à mente, e em que milhões de pessoas vão aos cemitérios levar suas flores, velas, sentimentos e orações. Acho louvável esse ato dos cristãos em prestar homenagens e lembrar com carinho dos seus entes queridos já falecidos, mas será que eles estão mesmo mortos? Como adepto da Doutrina Espírita, estou plenamente convencido de que os espíritos dos seres humanos continuam vivendo após a morte do corpo físico, inclusive hoje em dia já existem evidências científicas suficientes para comprovar a imortalidade do espírito e a existência da reencarnação. 

Trazendo este assunto para o âmbito do xadrez, em 1985 foi realizado um experimento muito interessante: organizou-se uma partida de xadrez entre o GM Viktor Kortchnoi e um suposto espírito que afirmava ser o antigo campeão húngaro Géza Maroczy, falecido em 1951. Esse encontro inusitado foi promovido por iniciativa de um enxadrista amador suíço, o Doutor em Economia Wolfgang Eisenbeiss, que estava interessado em buscar evidências para provar a existência da vida no "além". A partida foi disputada com o auxílio do médium Robert Rollans (1914-1993), que teria recebido do suposto espírito as jogadas a serem executadas no tabuleiro. Médium, conforme nos ensina a Doutrina Espírita, é a pessoa dotada da capacidade de se comunicar com os espíritos. Rollans foi o escolhido para atuar no experimento porque não sabia jogar xadrez e não conhecia nada a respeito da história do jogo, não conhecia nem mesmo quem eram os envolvidos na disputa. Somente com o desenrolar da partida ele foi adquirindo os rudimentos mais básicos do jogo, mas apenas para que isso o ajudasse a entender melhor o conteúdo das comunicações. O suposto espírito de Maroczy comunicava-se tanto em húngaro (sua língua nativa) quanto em alemão, e quando perguntado o porquê de haver concordado em jogar aquela partida, ele deu a seguinte resposta: "Concordei por dois motivos. Primeiro, quero convencer a humanidade de que a morte não é o fim. Vim ajudar as pessoas a entender isso. Após a morte, a mente se separa do corpo e vive em outro mundo, em outras dimensões. Em segundo lugar, quero glorificar minha Hungria natal".

 

GM Viktor Kortchnoi (à esq.) e GM Géza Maroczy
 

A partida entre Kortchnoi e o "espírito" de Maroczy começou a ser jogada no dia 15 de junho de 1985, e nas fontes de pesquisa por mim consultadas não é mencionado o meio de comunicação usado para transmitir os lances entre Rollans e Kortchnoi e vice-versa, mas tudo indica que se tratou de uma partida de xadrez por correspondência. Algo que chama a atenção foi a longa duração do jogo: ele durou 7 anos e 8 meses, terminando no dia 11 de fevereiro de 1993! A longa duração da partida foi devida às frequentes viagens de Kortchnoi, bem como aos compromissos de trabalho, viagens e problemas de saúde de Robert Rollans. Durante o experimento, o médium Rollans e Kortchnoi não tiveram contato em nenhum momento. Coube ao espírito de Maroczy jogar com as peças brancas, e ele abriu o jogo com 1. e4. Kortchnoi respondeu e6, empregando a sua favorita Defesa Francesa. À medida que o embate se desenvolvia, Kortchnoi manifestava suas impressões sobre a partida. À altura do lance 27, quando o jogo já havia entrado em um final de torres e peões, ele comentou: "Durante a fase de abertura, Maroczy mostrou deficiência. Seu jogo é antiquado. Mas devo confessar que meus últimos movimentos também não foram convincentes. Não estou certo de que ganharei. Ele compensou as falhas da abertura por um forte fim de jogo. No fim do jogo a habilidade de um jogador aparece, e meu oponente joga muito bem". Enfim, no 47º movimento, o suposto espírito admitiu a derrota e abandonou. Esse confronto entre um vivo e um "morto" ficou conhecido na história do xadrez como a famosa partida espiritualista entre Kortchnoi e o "fantasma" de Géza Maroczy. Ao analisá-la, o ex-campeão sul-africano de xadrez Vernom Neppe declarou: "Esse nível não poderia ter sido alcançado pelo médium mesmo após um grande treinamento, presumindo que o médium não fosse um gênio do xadrez".

 

Partida espiritualista entre Maroczy e Kortchnoi - posição final

 

Irei deixar um link para a partida, mas quero mostrar também a posição final, que está representada no diagrama acima. As brancas estão perdidas, porque se tentarem jogar 48. b4, avançando o peão com a intenção de promovê-lo, as negras respondem simplesmente com 48. ... c2 49. Rxc2 (forçado) Re2, abrindo passagem para a descida do peão de d4, que chega antes à oitava fila do que o seu colega de b4. É claro que, para os mais céticos, sempre irá pairar a dúvida quanto à autenticidade da partida, afinal quem pode garantir que o médium não estaria recebendo ajuda de um ou mais jogadores de carne e osso? Pois bem: o que torna esse caso ainda mais impressionante é que o Dr. Eisenbeiss, idealizador do experimento, resolveu se certificar da identidade do suposto espírito. Para isso, ele solicitou a Maroczy, através do médium Rollans, um relatório contendo dados sobre a sua vida na terra. No dia 31 de julho de 1986, Rollans recebeu um longo texto de 38 páginas, com riqueza de informações acerca da vida do GM húngaro, e com detalhes que ninguém, com exceção do próprio Maroczy, poderia saber. As informações do relatório posteriormente foram confirmadas por Lászlo Sebestyén, um historiador e perito em xadrez da Hungria. Apesar disso, quando o Dr. Eisenbeiss publicou o resultado do seu experimento, o mundo científico reagiu negativamente, e o acusou de fraude, reação muito comum por parte dos cientistas ortodoxos, que se recusam a aceitar a realidade incontestável da vida no plano espiritual. Vale salientar que nem Viktor Kortchnoi nem o médium Robert Rollans receberam qualquer valor financeiro para participarem do experimento. Segue, conforme prometido, o link para a partida completa (veja a partida aqui).

E você, amigo(a) leitor(a), o que pensa sobre esse episódio? Você acredita na possibilidade da interação entre o mundo físico e o mundo espiritual? Já vivenciou ou conhece alguém que já vivenciou alguma experiência dessa natureza? Deixe sua opinião nos comentários, ela será muito bem-vinda. Até breve!

 

FONTES

https://www.metabunk.org/threads/chess-victor-korchnoi-vs-geza-maroczy.1769/

https://kirsan.today/en/opinion/item/3305-geza-maroczy-i-came-to-say-that-death-is-not-the-end.html

Revista Ciência Espírita. Edição 10 - Dez/2016. Pág. 13-29. https://revistacienciaespirita.com/


sábado, 31 de outubro de 2020

SEÇÃO BATE & REBATE #13

 

Amigo(a)s, é chegado o momento de publicarmos mais uma entrevista da Seção Bate & Rebate aqui no blog Batalha de Mentes, a de número 13! Como sempre fazemos questão de ressaltar, o propósito desta seção, idealizada pelo nosso amigo e colaborador Joaquim Virgolino, é promover a interação com enxadristas de todo o Brasil e até do exterior, por meio de entrevistas rápidas, no formato "pingue-pongue", que são realizadas por Joaquim e publicadas sempre aos sábados. O nosso entrevistado de hoje é um dos melhores enxadristas do estado da Paraíba, detentor do título de Mestre Nacional e ex-campeão paraibano de xadrez. Estou falando do MN Evandro Rodrigues da Silva, forte jogador e grande incentivador da prática do xadrez on-line, tendo se destacado no atual período de pandemia como um ativo organizador de torneios nessa modalidade. Antes disso, ele já havia transformado a Sucaçaí, lanchonete de propriedade de sua esposa, em um ponto de encontro para a prática do xadrez em Campina Grande-PB, cidade onde reside. Ele é um enxadrista com um vasta experiência no currículo, já tendo representado o Brasil em competição no exterior (Jogos Industriários do SESI). Quero agradecer ao MN Evandro pela sua disponibilidade em nos conceder esta entrevista, e ao nosso colaborador Joaquim Virgolino por tê-la realizado. Com a palavra, Evandro Rodrigues!

 

 
 

NOME: Evandro Rodrigues da Silva

IDADE: 57 anos

CIDADE NATAL: João Pessoa-PB

 

01 - Qual é a sua cor favorita? R.: Amarelo.

02 - Comida de que mais gosta? R.: Pizza.

03 - Bebida preferida? R.: Coca-cola.

04 - Um filme inesquecível? R.: Último tango em Paris.

05 - Qual o livro de xadrez mais interessante que você já leu? R.: Não sou muito teórico, gosto do xadrez bruto... mas gostei do livro Duelos de Xadrez, de Yasser Seirawan.




06 - Uma música que marcou vida? R.: November rain, de Guns N' Roses.

 
Obs.: Conheça a música escolhida pelo entrevistado assistindo ao vídeo a seguir: 



07. Qual o seu maior medo? R.: Realmente não sei... mas creio que seja medo de que os filhos morram primeiro.

08. Um sonho? R.: Chegar aos 90 anos com saúde.

09. Quais as três pessoas que você adoraria convidar para jantar? R.: Sou muito reservado quando não se trata de xadrez... creio que somente a mulher e os dois filhos.

10. Uma partida ou lance inesquecível de alguma lenda do xadrez? R.: Gostei muito da partida que Carlsen ganhou de Karjakin com um lindo mate forçado no Campeonato Mundial.

11. Quem é o seu jogador de xadrez favorito? R.: Nakamura.
 
 

 

12. Seu maior defeito? R.: Falar pouco e ser muito introspectivo.

13. Uma atriz ou ator? R.: Al Pacino.

14. Estilo musical preferido? R.: Sem estilo musical preferido... adoro músicas francesas antigas.

15. Eu não tiro o chapéu para... R.: João Dória.

16. Qual ensinamento ou princípio do xadrez é útil na sua vida cotidiana? R.: Depois que passei a jogar com muita frequência meu rendimento escolar melhorou... minha capacidade de visualizar mentalmente e memorizar melhoraram muitíssimo... e passei a viajar, conhecer novos lugares e fazer novos amigos.

17. O que você salvaria da sua casa se ela estivesse pegando fogo? (Apenas duas coisas)  R.: Filho e esposa e os cachorros.

 


 

18. O que você aprecia em uma pessoa? R.: Sinceridade.

19. Deus? R.: É o ser supremo dos cristãos.

20. Um arrependimento? R.: Não ter ido ao Intercontinental no Rio Grande do Norte.

21. Seu ídolo? R.: Ayrton Senna.

22. Que animal você seria? R.: Tigre.

23. Evandro Rodrigues por Evandro Rodrigues: R.: Em paz sempre.

 


 

E assim fechamos este mês de outubro com "chave de ouro", com a entrevista desse importante expoente do xadrez paraibano. Até o sábado que vem, com mais uma entrevista, se Deus quiser!