sexta-feira, 27 de novembro de 2020

RECORDANDO AVRO

 

No dia 27 de novembro de 1938, há exatos 82 anos, terminava na Holanda o lendário torneio de AVRO, um dos mais importantes de todos os tempos. Pela primeira vez na história do xadrez, os oito melhores enxadristas do mundo se reuniram para jogar um torneio a duplo turno (todos contra todos, ida e volta). Os competidores desse supertorneio foram o então campeão mundial Alekhine, os ex-campeões mundiais Capablanca e Euwe, o futuro campeão mundial Botvinnik, e mais quatro aspirantes ao trono, Fine, Reshevsky, Keres e Flohr. O seu nome teve origem na sigla formada pelas palavras Algemene Vereniging Radio Omroep, que era o nome da companhia holandesa de radiodifusão que organizou e patrocinou o evento. Segundo comenta Kasparov em Meus Grandes Predecessores, o torneio de AVRO funcionou como uma espécie de divisor de águas, ao marcar o declínio dos antigos reis do xadrez (Capablanca, Alekhine e Euwe) e o surgimento de uma nova geração de estrelas, que estariam destinadas a brilhar por muito tempo no firmamento enxadrístico. Com a palavra, o "Ogro de Baku": "Esse torneio significou o final da era dos titãs, que haviam reinado sobretudo pelo seu talento natural, marcando o começo da era do profissionalismo do xadrez, sem o qual, hoje, são impensáveis grandes conquistas". 

 

Alguns participantes de AVRO. Da esq. para dir.: Euwe, Alekhine, Flohr e Keres

A fortíssima competição foi brilhantemente vencida pelo jovem estoniano Paul Keres, de 22 anos, que terminou invicto, com 8,5 pontos em 14 possíveis (três vitórias e onze empates). Keres logo se transformaria em um sério candidato ao título mundial, porém, apesar de ter tentado ao longo de décadas, jamais chegaria a alcançar a coroa do xadrez. Com a mesma pontuação do campeão, o segundo colocado no critério de desempate foi o estadunidense Reuben Fine, de 24 anos. A classificação completa do torneio encontra-se mostrada a seguir.


No.  Nome







Total
1   Paul Keres







 8½ (+3 -0 =11)
2   Reuben Fine







 8½ (+6 -3 =5)
3   Mikhail Botvinnik







 7½ (+3 -2 =9)
4   Alexander Alekhine








 7 (+3 -3 =8)
5   Machgielis Euwe







 7 (+4 -4 =6)
6   Samuel Reshevsky







 7 (+3 -3 =8)
7   José Raúl Capablanca







 6 (+2 -4 =8)
8   Salomon Flohr







 4½ (+0 -5 =9)

 

Quanto ao 3º colocado, Mikhail Botvinnik, que 10 anos mais tarde se consagraria campeão mundial, seu jogo causou uma boa impressão pela consistência, e é dele a mais bela partida do torneio, sua memorável vitória sobre Capablanca, em que foi jogada uma das mais brilhantes combinações da história, por sua precisão matemática, iniciada pelo lance 30. Ba3!!, um sensacional sacrifício de bispo para desviar a dama da defesa do rei negro. Esta partida é bastante conhecida, mas você pode visualizá-la clicando aqui. São também dignos de menção os dois confrontos entre Alekhine e Capablanca, que estavam inimizados há anos e haviam se encontrado raras vezes frente ao tabuleiro desde o match pelo campeonato mundial de 1927... o primeiro jogo entre os velhos rivais terminou empatado, mas Alekhine venceu o segundo com as peças brancas, superando a Defesa Francesa do gênio cubano (veja essa partida clicando aqui). Finalizada a competição, tanto Keres quanto Botvinnik buscaram iniciar negociações para disputar um match válido pelo título mundial contra Alekhine, mas essas negociações não resultaram em nada concreto... lamentavelmente, no ano seguinte (1939), estourou a 2ª Guerra Mundial, inaugurando um dos capítulos mais tristes da história da humanidade e encerrando uma era de ouro no xadrez. O torneio de AVRO, que assinalou o início da era do profissionalismo no xadrez, será sempre lembrado por todos os amantes do nobre jogo, por sua relevância histórica e pela qualidade dos seus confrontos.


O campeão Keres recebendo a premiação pela sua vitória em AVRO

quinta-feira, 26 de novembro de 2020

VOCÊ SABIA?

 

De acordo com os registros do site Chess.com, a partida entre Etienne Bacrot e Vasily Smyslov detém o recorde de maior diferença de idade entre os oponentes em todos os tempos, impressionantes 62 anos! A referida partida foi disputada no dia 10 de setembro de 1996, na cidade de Albert (França). Na ocasião, Bacrot tinha 13 anos, e Smyslov 75. O adolescente francês jogou com as peças brancas, e venceu uma Defesa Eslava em 44 lances. Esta seria a sua primeira vitória contra um Grande Mestre, e que Grande Mestre! Ninguém menos do que um ex-campeão mundial! Para visualizar esta partida, clique aqui.

 

O jovem Etienne Bacrot

PENSAMENTO DO DIA

 

"Xadrez nem sempre é competitivo. Xadrez pode ser lindo (...) É um mundo inteiro dentro de 64 quadrados. Eu me sinto segura no tabuleiro. Eu posso controlá-lo. Eu posso dominá-lo. E é previsível, então, se eu me machucar, eu só tenho que culpar a mim mesma" (Beth Harmon - personagem da minissérie "O Gambito da Rainha"). 

 


quarta-feira, 25 de novembro de 2020

SEÇÃO VALE A PENA CONHECER

 

Amigo(a) enxadrista, você gosta de jogar gambitos? Confesso que há algum tempo atrás eu pensava duas vezes antes de correr o risco de sacrificar material na abertura, até o momento em que conheci no YouTube o canal Xadrez e Gambitos, voltado exclusivamente para exibição de vídeos sobre gambitos. O canal foi idealizado pelo enxadrista paulista Domingos Sávio Perego, um simpático veterano dos tabuleiros, e atualmente conta com quase 80 vídeos, em que são analisadas partidas com diversas linhas de gambitos, tanto para as brancas quanto para as negras. Acompanhar os vídeos dele tem sido uma oportunidade bastante proveitosa para mim, pois comecei a enxergar os gambitos de outra forma, e passei a não ter mais receio de empregá-los em minhas partidas. Pude perceber o quanto certos gambitos são eficientes contra uma defesa imprecisa por parte do adversário, dando origem a posições agudas, em que ambos os lados partem para uma luta franca, para "matar ou morrer". Como diz o próprio Domingos Sávio em um dos seus vídeos, em partidas de gambito tudo se resolve rapidamente, ou você ganha ou perde depressa, visto que essas partidas não costumam durar mais do que 30 lances. Além da maior emoção proporcionada por essas posições mais agudas, ao empregar linhas pouco estudadas, como alguns gambitos menos conhecidos, você força o seu adversário a gastar uma maior quantidade de tempo pensando, já que ele acaba sendo conduzido para posições que desconhece, o que pode ser uma vantagem em jogos de ritmo relâmpago, nos quais os jogadores dispõem de pouco tempo no relógio. Parece até mágica... você entrega um simples peão na abertura, e pronto! Toda a configuração da partida é modificada!

 

Domingos Sávio Perego, do canal Xadrez e Gambitos

 

Para finalizar esta matéria, convido todos os leitores e leitoras do blog Batalha de Mentes a se inscreverem no canal do Sr. Perego, a fim de ajudar no crescimento do canal e incentivar seu criador a continuar produzindo vídeos para a comunidade enxadrística. Os vídeos são relativamente curtos, têm em média 10 minutos de duração, e algumas linhas apresentadas são consideradas sólidas, podendo ser jogadas até mesmo em partidas sérias. O estudo dessas linhas de jogo contribui para que o enxadrista ousado, que não teme se arriscar, possa renovar o seu repertório de aberturas, surpreendendo seus adversários! Compartilho abaixo o link de acesso ao canal, bem como um dos vários vídeos disponíveis. Vale a pena conhecer!

https://www.youtube.com/channel/UCep1R5Okd_yj3V8l_PIPgKw 

 



segunda-feira, 23 de novembro de 2020

OS SETE RECORDES DE XADREZ MAIS IMPRESSIONANTES

 

Recordes nos inspiram a nos empenhar por grandeza. O longo legado do xadrez deu origem a alguns recordes que permanecem por décadas e alguns podem até permanecer por séculos.

Aqui estão sete dos mais impressionantes recordes de xadrez já estabelecidos na história.

 

1. Maior série vencedora: Bobby Fischer - 20 (ou 19) partidas

Na corrida pelo título que finalmente culminou em seu confronto com Boris Spassky, Bobby Fischer venceu 20 partidas de forma extraordinária contra a elite de competição. Ele começou sua jornada no Interzonal de 1970 em Palma de Mallorca, onde venceu 7 partidas em sequência para finalizar o torneio. Devido a Oscar Panno ter abandonado sua partida sem fazer qualquer lance, alguns historiadores de xadrez preferem desconsiderar essa partida.

Nos confrontos de Candidatos que se seguiram em 1971, Fischer derrotou Mark Taimanov e Bent Larsen, ambos com escores perfeitos de 6-0. Depois de uma vitória contra Tigran Petrosian no confronto seguinte, perdeu a segunda partida, dando fim à série. Fischer continuou e derrotou com folga tanto Petrosian quanto Boris Spassky para se tornar campeão mundial de xadrez.

 


 

2. Série mais longa sem derrotas: Magnus Carlsen - 125 partidas

O atual campeão mundial, Magnus Carlsen, tem dominado o mundo do xadrez nos últimos 10 anos, exibindo um jogo sólido e intuitivo, qualidades que fazem dele um oponente muito difícil de derrotar. Neste ano de 2020, Carlsen bateu um recorde sensacional: ele se manteve invicto, em partidas oficiais de ritmo clássico, durante uma série de 125 partidas, o equivalente a 800 dias sem perder! 

Esse recorde histórico de invencibilidade constitui-se de 44 vitórias e 81 empates. As partidas foram disputadas contra rivais do mais alto escalão do xadrez internacional, o que torna o recorde ainda mais impressionante. O responsável por interromper a sequência invicta de Carlsen foi o polonês Jan-Krzysztof Duda, atualmente (novembro/2020) o 19º colocado no ranking da FIDE, com 2743 pontos de rating. Duda derrotou o campeão mundial no dia 10 de outubro deste ano, em partida válida pela 5ª rodada do torneio presencial Altibox Norway Chess, vencido por Carlsen.




3. Campeão mundial durante mais tempo: Emanuel Lasker - 27 anos

Emanuel Lasker se tornou o segundo campeão mundial quando derrotou Wilhelm Steinitz, em 1894. Ele reteve seu título até ser derrotado por José Raúl Capablanca, em 1921. Ele continuou a jogar e a participar de torneios de elite até os anos 1930. Frequentemente se observa que esse domínio foi prolongado porque a intervenção da Primeira Guerra Mundial adiou confrontos planejados com Rubinstein e Capablanca. Mesmo contando esses anos sem confrontos, o domínio de Lasker permaneceria muito maior do que o de qualquer outro campeão.




4. Maior ELO já atingido: Magnus Carlsen - 2882

Magnus Carlsen atingiu essa marca em maio de 2014, nas listas da FIDE. Não oficialmente, ele atingiu a marca até maior de 2889 na lista de ratings em tempo real. Alguns argumentam que a inflação de rating faz com esses recordes não tenham significado, porém uma análise do Chess.com mostra que a habilidade no xadrez realmente está aumentando ao longo do tempo.

No momento em que este artigo é escrito, apenas 12 jogadores alcançaram um rating de 2800. Carlsen foi o único jogador a se aproximar de 2900.


 

5. Jogador mais jovem a se tornar Grande Mestre: GM Sergey Karjakin - 12 anos e 7 meses

Karjakin é, no momento desta publicação, o único jogador a ganhar o título de Grande Mestre aos 12 anos de idade. Karjakin teve sua primeira experiência de jogo em confronto de campeonato assim que completou 12 anos, ele foi treinador de Ruslan Ponomariov durante seu confronto contra Vasily Ivanchuk no campeonato mundial.

Em 2016, Karjakin obteve sua segunda experiência no campeonato mundial, desafiando Magnus Carlsen. Após empate de 6-6 ao longo de 12 partidas clássicas, com cada jogador ganhando uma, o confronto acabou sendo decidido a favor de Carlsen em partidas rápidas de desempate.

 

 

6. Maior número de partidas simultâneas: GM Ehsan Ghaem Maghami - 604 partidas

Uma exibição simultânea é um conjunto de partidas contra vários adversários ao mesmo tempo. Geralmente os adversários sentam em fileira ou círculo e o mestre roda os jogadores fazendo lances contra cada adversário e indo até o próximo.

Ehsan Ghaem Maghami, campeão iraniano nove vezes, enfrentou uma quantidade impressionante de 604 jogadores para cravar o recorde de maior número de adversários simultâneos. Ele venceu 580 partidas, empatando apenas 16 e perdendo oito numa exibição simultânea em Teerã, Irã. A exibição ocorreu nos dias 8 e 9 de fevereiro de 2011, no estádio de esportes da Universidade Shahid Beheshti.

 


7. Maior número de partidas simultâneas às cegas: GM Timur Gareyev - 48 partidas

Um dos feitos mais notáveis no xadrez é a partida às cegas. Numa partida às cegas, não é permitido que o jogador olhe o tabuleiro. Os jogadores devem guardar a posição inteira nas suas cabeças à medida que os lances são comunicados por notação de xadrez. Numa exibição simultânea às cegas, o enxadrista-exibidor deve guardar todas as posições de uma vez na memória, um feito assombroso de habilidade e concentração no xadrez.

Timur Gareyev marcou um novo recorde mundial para esse formato em 3 e 4 de dezembro de 2016, quando jogou contra 48 adversários de uma vez. Ele obteve 35 vitórias, 7 empates e 6 derrotas. 

 

 

FONTE: Site Chess.com. Artigo originalmente publicado em: https://www.chess.com/pt-BR/article/view/os-7-recordes-de-xadrez-mais-impressionantes, em 28/12/2017, sendo atualizado pelo editor deste blog, para contemplar o recorde de Magnus Carlsen de maior série invicta de partidas.


sábado, 21 de novembro de 2020

SEÇÃO BATE & REBATE #16

 

Prezado(a)s leitore(a)s, apresentamos mais uma publicação da Seção Bate & Rebate, a de número 16. Como todos já sabem, o propósito desta seção, idealizada pelo nosso amigo e colaborador Joaquim Virgolino, é promover a interação com enxadristas de todo o Brasil e até do exterior, por meio de entrevistas rápidas, no formato "pingue-pongue", que são realizadas por Joaquim e publicadas sempre aos sábados. A nossa entrevistada de hoje é uma pessoa muito especial, por várias razões: em primeiro lugar, ela é a mais ativa jogadora de xadrez da Paraíba na atualidade, tendo marcado presença em numerosos torneios nos últimos anos. Além disso, é alguém que ama profundamente o jogo-arte-ciência, a ponto de ter transformado a sua casa em um clube de xadrez (Clube de Xadrez Gurgel), e que, apesar de todas as dificuldades e das lutas travadas no dia-a-dia, mostra sua força e não se deixa abater, com a garra e a coragem de alguém que enfrenta desafios e supera obstáculos em busca de dias melhores, sem jamais desistir, motivo pelo qual merece todo o nosso respeito e admiração. Por fim, é uma pessoa de coração enorme, uma das mais generosas que já conheci, e por tudo isso tenho orgulho de ser seu amigo. Estou falando de Valdemiza Gurgel, uma das figuras mais queridas e simpáticas do xadrez paraibano, pelo qual tenho um imenso carinho. É sobre ela que vamos ficar conhecendo um pouco mais, por meio da presente entrevista. Diferentemente da maioria das entrevistas anteriores, que foram realizadas pelo nosso colaborador Joaquim Virgolino, a de Valdemiza foi conduzida por mim. Vamos lá!

 

NOME: Valdemiza Gurgel de Almeida

IDADE: 61 anos

CIDADE NATAL: São João do Rio do Peixe-PB

PROFISSÃO: Professora

 

01 - Qual é a sua cor favorita? R.: Verde cana.

02 - Comida favorita? R.: Arroz de leite com carne de sol.

03 - Passatempo favorito? R.: Jogar xadrez.

04 - Um filme inesquecível? R.: Códigos mortais.

05 - Qual foi o livro de xadrez mais interessante que você já leu? R.: Meus Grandes Predecessores, de Kasparov.

 

 


06 - Uma música que marcou a sua vida? R.: I don't want to talk about it - Rod Stewart.


Obs.: Conheça a música escolhida pela entrevistada assistindo ao vídeo a seguir:

 


 

07 - Qual o seu maior medo? R.: Perder a fé.
 
08 - Um sonho? R.: Alcançar a maestria no xadrez.
 
09 - O que mais lhe atrai no xadrez? R.: O que cada peça simboliza e traz de ensinamento para a nossa vida.
 
10 - Se você pudesse mudar alguma coisa no mundo, o que seria? R.: Faria com que as pessoas tivessem mais solidariedade, que se preocupassem mais com o outro. 
 
 

 
11 - Quem é o seu maior ídolo no xadrez, e por quê? R.: Sr. Luiz Macedo, por tudo o que ele representa para o xadrez do Nordeste, e pelo comportamento demonstrado no tabuleiro, sempre respeitando o oponente.

12 - Quem é Deus para você? R.: Minha existência... não consigo me ver sem a Sua presença.

13 - Qual o seu maior defeito? R.: Não achar tempo para fazer o melhor do desejo de Deus.

14 - Sua maior qualidade? R.: Torcer pelo outro.

15 - O que é felicidade para você? R.: As famílias prósperas, tanto a minha como a de todos.
 
 

 
16 - Você não tira o chapéu para... R.: Poderosos corruptos.

17 - Qual o ensinamento ou princípio do xadrez é útil na sua vida? R.: Desenvolvimento cognitivo, raciocínio lógico e respeito.

18 - Existe alguma coisa que você gostaria de aprender? R.: Jogar xadrez e ser gente.

19 - Qual mensagem você deixaria para os leitores do blog? R.: Que amem, que se modifiquem, que olhem e façam pelo outro. Que sejam humildes no xadrez e amem verdadeiramente sua pátria.

20 - Valdemiza por Valdemiza: R.: Sempre forte para o que der e vier.


Valdemiza enfrentando Ednaldo Lima em um torneio do Clube de Xadrez Gurgel


E assim concluímos a entrevista da amiga Valdemiza Gurgel... agradeço a Valdemiza pela disponibilidade em participar deste humilde canal informativo, e fico feliz pela oportunidade de ter acompanhado um pouco da sua trajetória e de ter testemunhado toda a sua dedicação ao xadrez. Que Deus continue abençoando seus caminhos, querida Valdemiza! Sábado que vem estaremos de volta, com mais uma entrevista da Seção Bate & Bate, aqui no blog Batalha de Mentes. Até lá!


sexta-feira, 20 de novembro de 2020

COMPOSIÇÃO DE TIMMAN - SOLUÇÃO

 

Há alguns dias atrás postei o diagrama abaixo, que consiste em uma composição do GM holandês Jan Timman, candidato ao título mundial da FIDE em 1993 e um dos melhores jogadores do mundo nas décadas de 1980 e 1990. A questão colocada na postagem anterior foi: na posição do diagrama, cabendo o lance às brancas, será que elas podem empatar a partida? 


Jogam as brancas. Elas perdem ou empatam?

 

Desta vez ninguém arriscou nenhuma avaliação, o que mostra que a solução não é tão simples. Quando olhei o diagrama pela primeira vez, confesso que pensei: "Realmente, não há o que se fazer aí... as brancas estão perdidas". De fato, à primeira vista, não há como as brancas impedirem a coroação do peão da coluna h, que parece ser o fator decisivo para a vitória das negras. No entanto, é possível às brancas construir uma posição em que nenhuma peça pode se mover, e é justamente com essa ideia que elas encontram milagrosamente a salvação, graças ao recurso do autoafogamento:

1. Bc7!! 

É impossível parar o peão da coluna h, por isso é preciso imaginar algo diferente para se obter o empate.

1. ... h3 2. Bb8 h2 3. c7 e empate por afogamento. Apesar da coroação do peão, as negras não conseguem vencer a partida, seja qual for a peça em que o peão irá se transformar. É isso que eu chamo de "tirar um coelho da cartola" na hora h... 😄 Como é belo e surpreendente o xadrez!


quinta-feira, 19 de novembro de 2020

FELIZ DIA MUNDIAL DO XADREZ!

 

Hoje, dia 19 de novembro, é um dia especial para todos nós enxadristas, em que se comemora o Dia Internacional (ou Mundial) do Xadrez. Essa data foi escolhida em homenagem ao ex-Campeão Mundial José Raul Capablanca, nascido a 19/11/1888, um dos maiores jogadores de xadrez de todos os tempos. Quero parabenizar a todos os praticantes dessa arte tão fascinante, cheia de sutilezas e mistérios... sem dúvida somos grandes privilegiados, pois, vivendo em um mundo tão injusto e tendo que enfrentar tantas adversidades, temos a sorte de contar com o xadrez para suavizar nossa existência! Parabéns para nós!! 💙💚💛

 


PENSAMENTO DO DIA

 

"Jogadores de primeira categoria perdem para os de segunda, porque estes, às vezes, jogam uma partida de primeira classe" (GM Siegbert Tarrasch).

 

Siegbert Tarrasch (1862-1934)

 

terça-feira, 17 de novembro de 2020

A VINGANÇA DE BOTVINNIK

 

Os anais da literatura enxadrística assinalam que o 6º campeão mundial, o soviético Mikhail Botvinnik, era um sujeito de personalidade difícil, que mantinha relações conflituosas com vários dos seus colegas enxadristas. Ele era dono de um caráter rancoroso, e por isso não admitia que lhe fizessem brincadeiras ou que o tratassem com pouco-caso. Em meados da década de 1930, ao conseguir se tornar um dos mais fortes jogadores do seu país, ele "caiu nas graças" da cúpula do regime comunista vigente na União Soviética, à época liderada pelo facínora Josef Stalin, o segundo maior genocida da história da humanidade, atrás apenas de outro ditador comunista, o chinês Mao Tsé-Tung. Como já escrevi em outra oportunidade aqui no blog, Botvinnik utilizou, mais de uma vez, o prestígio que conquistara junto às autoridades para prejudicar adversários e obter favorecimento pessoal. Por exemplo, no match-torneio celebrado em 1948, que serviu para determinar quem seria o detentor do título de campeão mundial após a morte de Alekhine, havia três Grandes Mestres soviéticos competindo: Botvinnik, Smyslov e Keres. Todos sabiam que Botvinnik era o favorito do governo soviético para conquistar o tão cobiçado título mundial, e ele mesmo admitiu, em entrevista concedida quase meio século depois do evento, que o próprio Stalin dera ordens para que não apenas Keres mas também Smyslov perdessem para ele. Apesar da sua incontestável força, essa "pequena ajuda" do líder máximo da URSS foi decisiva para que Botvinnik vencesse o match-torneio e consequentemente se tornasse o campeão mundial. Três anos depois, na disputa pelo Campeonato Mundial de 1951, a história se repete, dessa vez com o desafiante David Bronstein, que também foi pressionado pelas autoridades a perder o match contra Botvinnik, como registramos aqui no blog (leia aqui).

 

Botvinnik teve ajuda do governo para se tornar campeão mundial em 1948

Em 1946, no famoso torneio de Gronigen (Holanda), o primeiro grande torneio pós-2ª Guerra, ocorreu um episódio que feriu o ego de Botvinnik, o qual lhe daria motivo para por em prática uma vingança pessoal. Na última rodada do evento, aconteceria o primeiro encontro de Miguel Najdorf e Botvinnik frente ao tabuleiro. Na véspera da partida, Najdorf procurou o segundo de Botvinnik, o GM Salo Flohr, e apostou com ele 500 florins que ganharia a partida. Najdorf não só apostou que venceria Botvinnik, mas declarou que iria "depená-lo como um frango". Como já era de se esperar, a aposta, bem como a declaração ofensiva do GM argentino, chegaram ao conhecimento dos outros participantes do torneio, e, inclusive, de Botvinnik. Quando chegou o momento do jogo, tudo aconteceu exatamente como Najdorf havia previsto, e ele venceu seu oponente em bom estilo (veja a partida aqui). Botvinnik nunca perdoou Najdorf por essa afronta, e dois anos depois da vergonhosa derrota, ele teve a oportunidade de vingar-se: em 1948, a FIDE estava organizando o match-torneio pelo Campeonato Mundial, e, diante da recusa de Reuben Fine em participar da competição, os organizadores cogitaram convidar Najdorf para ocupar a vaga deixada por Fine. Ao saber da pretensão da FIDE, Botvinnik de imediato manifestou uma oposição feroz àquela ideia, e pressionou a Federação Soviética de Xadrez para que a entidade não aceitasse a participação de Najdorf. A Federação Soviética, que a essas alturas já era a mais poderosa do mundo, usou sua influência para convencer a FIDE a não convidar Najdorf para o torneio, e a FIDE cedeu. Com isso, Miguel Najdorf se viu privado da oportunidade de disputar o título mundial de xadrez, e o vingativo Botvinnik teve sua desforra pela derrota sofrida em Groningen.

 

Najdorf e Botvinnik se enfrentando na Olimpíada de Moscou (1956)

segunda-feira, 16 de novembro de 2020

UMA COMPOSIÇÃO DE TIMMAN

 

Jan Timman nasceu na Holanda, no ano de 1951. Na década de 1980, foi considerado o melhor jogador do mundo ocidental. Ele é um exímio analista, editor da prestigiada revista New in Chess e autor de diversos livros, dentre os quais se destaca El arte del análisis. Foi candidato ao título mundial da FIDE em 1993, mas perdeu o match contra Karpov. Em 1976, Timman criou uma composição (ou estudo), o qual aparece mostrado no diagrama abaixo.

 

As brancas jogam. Elas perdem ou empatam?

Notem que, apesar da ampla vantagem material, as brancas estão em perigo, pois o peão preto da coluna h está a três lances de ser promovido. Será que as brancas podem arrancar o empate nessa posição aparentemente perdida? O que me dizem, amigos? Analisem a posição e deixem seus comentários... na quarta-feira, trarei a resposta. Até lá! 

 

sábado, 14 de novembro de 2020

SEÇÃO BATE & REBATE #15

 

Como temos feito nos últimos sábados, é chegado o momento de publicarmos mais uma entrevista da nossa Seção Bate & Rebate, desta vez a de número 15. O convidado de hoje é um dos mais fortes enxadristas paraibanos, e também uma das figuras mais carismáticas do nosso meio enxadrístico. Estamos falando do MN Douglas Torres, o simpático "Peixada Forte", que possui em seu currículo alguns títulos importantes, como o de campeão paraibano de xadrez do ano de 2008 e de bicampeão do Torneio Master Paraíba, uma competição outrora promovida pela Academia de Xadrez Caldas Viana, a qual reunia representantes da elite do xadrez estadual. De acordo com a listagem da FIDE de novembro de 2020, Douglas detém 2.106 pontos de rating clássico, e é sempre um dos jogadores bem cotados para vencer os torneios nos quais se faz presente. Queremos agradecer ao amigo Douglas pela sua disponibilidade em conceder esta entrevista ao nosso humilde blog, e ao nosso parceiro e colaborador Joaquim Virgolino. Dito isso, vamos à entrevista!

 


NOME: Douglas da Silva Torres

IDADE: 47 anos

CIDADE NATAL: Cabo de Santo Agostinho-PE

 

01 - Qual é a sua cor favorita? R.: Preto.

02 - Comida de que mais gosta? R.: Rubacão.

03 - Bebida preferida? R.: Cerveja.

04 - Um filme inesquecível? R.: Top Gun.

05 - Qual o livro de xadrez mais interessante que você já leu? R.: Manual do Xadrez: entendendo o jogo lance a lance, do GM John Nunn.

06 - Uma música que marcou vida? R.: November rain - Guns N' Roses.

Obs.: Conheça a música escolhida pelo entrevistado assistindo ao vídeo a seguir: 


 


 

07. Qual o seu maior medo? R.: Depender dos outros.

08. Um sonho? R.: Viajar o mundo, de moto.

09. Quais as três pessoas que você adoraria convidar para jantar? R.: Raul Seixas, Mikhail Tal e meu tio Antônio.

10. Uma partida ou lance inesquecível de alguma lenda do xadrez? R.: Karpov vs. Kasparov, lance inovador na Defesa Siciliana, com Kasparov sacrificando um peão em d5. 16ª partida do match pelo Campeonato Mundial de 1985.

11. Quem é o seu jogador de xadrez favorito? R.: Mikhail Tal.

12. Seu maior defeito? R.: Sempre querer ajudar...

 


13. Uma atriz ou ator? R.: Denzel Washington.

14. Estilo musical preferido? R.: Eclético, dependendo do nível etílico.

15. Eu não tiro o chapéu para... R.: Corrupção.

16. Qual ensinamento ou princípio do xadrez é útil na sua vida cotidiana? R.: Pensar antes de agir.

17. O que você salvaria da sua casa se ela estivesse pegando fogo? (Apenas duas coisas)  R.: Livros e a moto. 

18. O que você aprecia em uma pessoa? R.: Honestidade.

 


 

19. Existe alguma coisa que você gostaria de aprender? R.: Falar inglês.

20. Seu hobby? R.: Correr.

21. Um arrependimento? R.: Não ter aproveitado mais as viagens que fiz de moto quando fui ao Ushuaia (Argentina).

22. Que animal você seria? R.: Lobo.

23. Brasil? R.: País corrupto de direito.

24. Uma mensagem que você gostaria de deixar para os leitores: R.: Prefiro viver com os loucos do que viver com os falsos.

25. Douglas Torres por Douglas Torres: R.: Animal indomável, louco pela vida!




Finalizada mais uma entrevista, no sábado que vem estaremos de volta, com mais uma publicação da Seção Bate & Rebate. Nossa próxima convidada será uma enxadrista paraibana que tem participado ativamente dos torneios locais nos últimos anos. Até breve, meus amigos, e tenham todo(a)s um bom domingo!